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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

MOLICEIROS DE AVEIRO - TODA A HISTÓRIA

BARCO MOLICEIRO

Moliceiros na Ria.
O barco moliceiro nasce duma pequena vara, conhe­cida pela designação de pau dos pontos que, no seu metro e meio de comprimento, tem marcadas todas as medidas que orientam a construção destas embarcações.
Esta actividade, que se encontra em vias de extinção, é uma indústria tão tradicional, que se verifica a heredita­riedade na profissão, encontrando-se famílias de mestres construtores que se sucedem, desde longínquas datas.
Os estaleiros localizam-se na região da Murtosa e, / 6 / ao contrário do que seria natural supor, situam-se no in­terior das povoações, distanciados da ria.
O barco moliceiro destina-se à colheita e transporte de moliço, nome vulgar que abrange, sem distinção de espécies, a vegetação submersa da ria de Aveiro.
Embarcação bem adaptada à actividade que pratica e às condições geográficas e climatéricas da sua zona de actuação, que abrange toda a ria, regula por 15 metros de comprimento, tendo os costados muito baixos e uma medida de boca de 2,5 metros. De fundo chato e de pequeno calado, navega facilmente com pouca altura de água.
É construído de madeira de pinho e resiste, em média, doze anos ao serviço.
A cor do costado é, inicialmente, amarelada, por efeito do embreamento a pez louro; mas, logo que sofre a primeira amanhação, o costado é totalmente embreado a pez negro, menos oneroso e mais eficiente no calafeto e protecção.
Exceptuam-se, neste segundo aspecto, as zonas ocupadas pelos painéis da proa e da ré que, apesar de reparados, conservam sempre o seu aspecto decorativo.
É bem singular a disposição interior deste pequeno barco, onde nada esquece.
/ 7 / O castelo da proa, inteiramente coberto e fechado com porta e chave, serve de câmara de tripulantes e de paiol de mantimentos.
A cobrir as duas primeiras cavernas de água, há um estrado, ao mesmo nível do piso da câmara e com a função de lareira, onde os tripulantes preparam e comem as refeições.
O castelo da ré é preenchido por um espaço, no / 8 / qual se acondicionam o barril de água, as forcadas e as tamancas, coberto por uma tampa móvel, que serve de assento ao arrais.
O leme, de grandes proporções, ostenta, dos dois lados, a divisa colorida do construtor.
Nas extremidades do costado, à proa e à ré, por ambos os bordos, situam-se os painéis decorativos.
Os meios de propulsão do barco moliceiro são: a vela, a vara e a sirga.
No primeiro caso, o mais vulgar, a vela é de formato trapezoidal, usualmente de lona, com uma superfície média de 24 metros quadrados, içada num mastro com a altura aproximada de 8 metros, assim alto para colher o vento, em todas as circunstâncias, que por vezes sopra, apenas, por cima de vegetações ribeirinhas.
Eventualmente, usa-se, à proa, um outro pano mais pequeno, adaptado a um mastaréu.
A fim de lhe servir de quilha, quando bolinam, utilizam a pá de borda outoste, colocada no bordo do barco, por sotavento, meia mergulhada e segura ao mastro, por cordas.
Cada embarcação possui três tostes, que servem, também, como pranchas. Com esta finalidade, um dos / 9 / lados é aparelhado com breu pulverizado de serradura, para lhe dar uma melhor aderência.
O segundo sistema de propulsão conseguem-no os moliceiros por intermédio de varas, de 4 a 6 metros de comprimento, que firmam no fundo dos canais e empurram, a peito, em repetidos percursos, desde a proa até próximo da ré. Para este efeito, a cobertura do castelo da proa e os bordos são aparelhados da mesma forma das tostes, com breu e serradura.
Por último, a deslocação por meio da sirga, cabo de sisal, esparto ou nylon, verifica-se na passagem dos canais mais estreitos ou junto às margens, sempre que o barco navega contra a corrente ou contra o vento. Uma das extremidades da sirga é amarrada aos golfiões, pequenas peças de madeira situadas na cobertura do castelo da proa; a outra leva-a o tripulante, que segue a pé pela margem, puxando o barco.

Moliceiros no Canal Central de Aveiro
No que respeita a decorações, trabalho de embelezamento que caracteriza o barco moliceiro, a parte monumental é a proa. Ali, reúnem-se as principais figuras, que são o símbolo dos elementos mais em contacto com a ocupação profissional, decompostos em curiosas ex­pressões geométricas. O movimento das águas, expresso / 10 / por uma faixa ondeada, intercalada com fragmentos de moliço, tem preferência, no friso superior, que remata na bica, peça recurvada, possivelmente inspirada no bico de certos palmípedes, e que constitui o ponto mais elevado da proa; seguem-se-lhe as conchas, em duas filas paralelas de semicírculos alternados na sua disposição. Estes, os atributos marítimos evocados, que cedem lugar, do lado oposto, nos frisos que limitam o mesmo painel no / 11 / seu prolongamento pelo costado, aos elementos campestres: as flores, especialmente as de maior predilecção popular — estas, como, aliás, todas as demais decorações, sempre num imbricado de cores vivíssimas.
Ao centro do painel, em lugar de honra, aparece, quase sempre, um monarca ou uma figura equestre, tendo, em volta, algumas plantas floridas a preencher os espaços disponíveis.
Esta parte central do painel é sublinhada por uma legenda, que, ou é relacionada com o motivo representado, ou indica, apenas, o nome do construtor, data e local da construção.
A diferença de estrutura, em relação à proa, limita, na ré, o espaço para as decorações. No entanto, é precisamente nestes painéis que se revelam os mais sugestivos desenhos e as legendas mais espirituosas. Aqui, têm larga representação as imagens de devoção popular, militares, raparigas e galãs, as profissões regionais, etc.
Nenhum desenho se repete, sendo sempre quatro as policromias, diferentes entre si.
As legendas, de que citaremos a seguir alguns exemplos, com a ortografia popular, cujos erros resultam / 12 / dos da própria dicção dos que as escrevem, podem di­vidir-se nos seguintes grupos:
SATÍRICAS
As mulheres querce gordas
É um pexão

Estaqui
 mas num é prati
Num me toques que me desafinas
AMOROSAS
Os dois namurados
Eu querote amar
Dame um beijo amor
Nao negues o que te pesso amor
PROFISSIONAIS
Bamus Ia pro rio
Corre que levas lerpas
O respeto bai a proa
O campião do arrulado
RELIGIOSAS
Ora bamus la cum Deos
Pas aos homes
Sinhora da Saudi
Sinhor dos Nabegantes
PATRIÓTICAS
Biba Portugal
bandera portugueza
Biba o sinhor Prezidente
Sempre defendi a pátria
/ 13 / O castelo da proa é a rubrica complementar da decoração: um friso floral, na vertente; nos dois golfiões, respectivamente, um galã e a namorada; na base da bica, um vaso com uma planta florida.
Este lindo barco, o encanto da ria, é aproveitado para lenha, quando já inútil para a actividade que exerce. No entanto, algumas vezes, poupam-lhe a proa, para a excêntrica serventia de galinheiro, coelheira ou canil.
A APANHA DO MOLIÇO
apanha do moliço foi, primitivamente, exercida pelos agricultores. Mais tarde, e como consequência da expansão agrícola, exigindo uma maior produtividade, criou-se a profissão dos moliceiros.
Estes homens exercem, geralmente, o ofício por conta própria e só descansam aos domingos e dias santos de guarda.
A tripulação de cada barco compõe-se de dois membros: arrais e moço. No entanto, e apesar desta aparente hierarquia, que o próprio tratamento recíproco de camarada / 16 / nega, as suas funções confundem-se, podendo qualquer deles tomar a seu cargo, indiscriminadamente, os diferentes trabalhos exigidos pelas operações de recolha ou descarga do moliço.
Nos sítios de maior profundidade, a apanha do moliço realiza-se pela forma seguinte: primeiramente, os moliceiros tomam barlavento; a certa distância do local determinado para a colheita e em andamento reduzido, colocam, nos bordos, dois ou quatro ancinhos de arrasto que, durante o percurso, são retirados alternadamente, sempre que os sintam carregados de moliço arrancado do fundo da ria, e colocados novamente nos seus lugares, depois de depositada a encinhada nas cavernas.
Atingido o limite da área de arrasto, os barcos retomam barlavento e recomeçam a faina.

Apanha do moliço.
Esta operação repete-se tantas vezes quantas as necessárias para completar o carregamento do barco e dá-se-lhe o nome de maré de moliço.
Nos locais em que a profundidade é menor, a colheita faz-se fora do barco, a pé, com ancinhos de apanhar, que também são utilizados para colher o arrolado, moliço que se desprende do fundo e fica a boiar ou dá às praias, impelido pela corrente e pelo vento.
/ 17  / No decurso da colheita, acontece que a embarcação, a partir de certa carga, mergulha os bordos, submersão esta que chega a atingir 40 centímetros, ao completar o carregamento, que orça pelas 5 toneladas. Para prevenir esta circunstância, aumenta-se o pontal do barco com 4falcas e 2 falquins, pranchas adaptáveis ao bordo e que se ligam entre si por justaposição.
moliço desempenha, como fertilizante, um papel / 17 / de relevo na transformação dos terrenos arenosos e im­produtivos em excelentes terras de cultura.
Quando se destina à aplicação em verde, ou seja, imediatamente após a apanha, os carros de bois vão junto dos barcos, nas margens da ria, para o transportar para os campos. Outras vezes, descarregam-no, compadiolas, dispondo-o depois em filas sucessivas de pequenos montes, nasmotas, cais de descarga de reduzida extensão.
Se, pelo contrário, é aplicado em seco, é descarre­gado e estendido em terrenos ligeiramente inclinados, a que dão o nome de malhadas, para lhe ser extraída a percentagem de água que representa uma sobrecarga inútil.
NOTA – O presente texto foi extraído do tomo referente a Os Moliceiros, Estudos Etnográficos, coordenados por Domingos José de Castro, obra editada pelo Instituto Português para a Alta Cultura, em 1943.


Glossário de designações relacionadas com o barco moliceiro, sua palamenta e faina da apanha do moliço.
ALÇA — Ferro, em forma de S alongado, que fixa a ostaga à draga.
AMANHAÇÃO — Reparação do barco.
AMURA — Cabo que fixa a vela à calcadeira.
Reprodução do desenho de Domingos José de Castro.
Ancinho de arrasto
ANCINHOS DE APANHAR — Compõem-se dum cabo de eucalipto de, aproximadamente, 2 m. de comprimento e dum pente com 12 a 14 dentes. São utilizados para mariscar, colher o arrolado e na apanha do moliço, nas marinhas de sal.
Reprodução do desenho de Domingos José de Castro.
Ancinho de apanhar
ANCINHOS DE ARRASTO — Compõem-se dum cabo de eucalipto, de 4 a 6 m. de comprimento e dum pente de carvalho com o comprimento de 1,50 m., por 0,08 m. de altura ao centro e 0,05 m. nas extremidades, provido de 64 dentes de 0,1 a 0,12 m., afastados entre si, nas pontas, 0,02 m. Duas alças de ferro, com dentes mais curtos, reforçam-no no seu ponto central. Estes ancinhos são fixados, obliquamente, em ambos os bordos do barco, em número não inferior a 2 nem superior a 4, e, arrastando pelo fundo da ria, arrancam o moliço.
ANDAR À ROLA — Ser impelido pela corrente e pelo vento, sem usar os meios de governo do barco. Por extensão, diz-se de qualquer objecto a boiar, abandonado, na corrente.
ANDAR À SIRGA — Utilizar a sirga como meio de propulsão.
ANDAR À VARA — Utilizar as varas como meio de propulsão.
ANDAR À VELA — Utilizar a vela como meio de propulsão.

Painel da proa.
APANHA DO MOLIÇO — Colheita e transporte do moliço.
ARGOLÃO — Argola em ferro, situada na cobertura do castelo da proa, que serve para fixar o pau das tira-viras e o mastaréu e, também, para calcar o traquete.
ARROLADO — Moliço que se escapa dos ancinhos de arrasto ou se desprende do fundo e fica a boiar ou vai dar às praias, impelido pela corrente e pelo vento.
BARCADA DE MOLIÇO — Carregamento dum barco, que orça pelas 5 toneladas.
BATENTE DA PROA — Vertente do castelo da proa. (O mesmo que barrote da proa).
BARROTE DA PROA — (Veja-se batente da proa).
BICA — Peça recurvada, talvez inspirada no bico de certos palmípedes, e que constitui o ponto mais elevado da proa e da ré do moliceiro. A da proa é articulada por meio de uma dobradiça, que lhe permite reduzir a altura, quando o barco tem de passar sob uma ponte baixa.
BOLEAR — Bolinar.
BOLINÃO — Cabo com uma das extremidades fixa à parte superior da vela, por 6 cordéis, denominados pernas do bolinão, e com a outra ponta presa ao moitão da bica. Serve para orientar o barco, de modo a ganhar barlavento.

Painel da ré.
BUEIRAS — Orifícios que atravessam as cavernas, a fim de dar passagem à água, facilitando, assim, o escoa­mento do barco. Alguns moliceiros têm 3 bueiras, em cada caverna: uma central e 2 laterais; outros só têm a do meio. Também algumas destas embar­cações têm todas as cavernas com bueiras, enquanto que outras só as têm nas 6 primeiras da proa, nas 2 situadas debaixo do traste e nas 2 últimas da ré.
CACHOLA — Orifício situado na extremidade superior do mastro, por onde passa a ostaga.
CAGARETE — Pequeno compartimento situado por detrás da entremesa, na parte mais estreita e elevada da ré, onde se deposita o sal, o peixe ou a carne salgada, para consumo de bordo.
CALCADEIRA — Argola em ferro, fixa na coxia, por onde passa a amura. Serve para calcar a vela.
CAMARADA — Tratamento usual entre os moliceiros.
CARREIRA — Canal navegável.
CHANÇA — Recorte de simples efeito decorativo, situado a meia altura da linha de contorno exterior do leme.
CHELEIRAS — Duas prateleiras, situadas a meia altura da câmara do castelo da proa, onde se guardam os mantimentos e os utensílios domésticos.
CINTA — Bordo do barco.
COSTANEIRA VOLANTE — Última tábua do paneiro, desligada deste, com o fim de facilitar o seu levantamento.
COXIA — Peça situada junto ao casco, debaixo do buraco do traste, onde se encaixa a extremidade inferior do mastro.
DRAGA — Cinta interior, paralela ao bordo.
ENCALAS - Aberturas situadas entre o bordo e a draga, onde se adaptam as falcas, as tamancas e as forcadas.
ENCINHADA — Porção de moliço colhido por um ancinho.
ENGAÇOS — Ancinhos de ferro, com cabo de madeira, munidos de 3 dentes, utilizados na descarga do moliço.
Reprodução do desenho de Domingos José de Castro.
Engaços.
ENTREMESA — Tampa móvel, com fechadura, que cobre o castelo da ré e constitui uma espécie de degrau alteado, que serve de assento ao arrais. No espaço coberto por esta tampa, guarda-se o barril da água, as forcadas e as tamancas.
ENVERGUE — (Veja-se verga).
ENVERGUES — Cordéis que prendem a vela à verga.
ESCOADOIRO OU ESCOADOURO — Utensílio semelhante a uma pá, com as dimensões usuais de 0,40 m. de largura por 0,45 m. de comprimento e 0,08 m. na altura dos lados, munido dum cabo, que forma manípulo. Serve para escoar a água, que se deposita nos vãos das cavernas. (O mesmo que vertedoiro).
ESCOPEIRO — Utensílio constituído por um cabo de madeira, tendo uma das extremidades envolvida num pedaço de pele de carneiro, fixada com pregos. Serve para embrear o barco.
ESCOTA — Cabo fixado à parte inferior da vela e que serve para dar mais ou menos pano à embarcação, regulando, assim, a sua velocidade.
ESCOTEIRAS — Extremidades das dragas, à ré, onde se prende a escota.

Castelo da proa.
FALCAS — Pranchas que se ligam, entre si, por justaposição e que se colocam no bordo do barco, para lhe aumentar o pontal. Cada embarcação tem 4 falcas e 2 falquins, que se adaptam, nas encalas, à razão de 2 falcas e um falquim por cada bordo, desde a vertente do castelo da proa até à antepenúltima caverna da ré. (Presentemente, nalguns barcos, estes limites são ultrapassados). Justapostas, estas peças acusam uma altura de 0,4 m., a partir da primeira falca, altura que decresce, até 0,25 m., na extremidade do falquim. O comprimento da falca da ré é de 4,30 m., o da proa é de 3,05 m. e o do falquim é de 1,15 m. Quando o carregamento do barco é composto de moliço de arrasto, não se utilizam as falcas, porque o próprio moliço impede a entrada da água.
FALQUINS — Falcas pequenas. (Veja-se falcas).
FERRO — Fateixa de 2 ou 4 braços.
FORCADA — Pau em forma de Y, que se apoia sobre o cagarete e se fixa, com um cabo, à bica da ré, servindo de apoio ao mastro, quando arreado.
FORCADAS — Peças de madeira, com a altura aproximada de 0,55 m., que se encaixam nas encalas, numa posição vertical. Servindo de apoio ao cabo dos ancinhos, conjugam as suas funções com as das ta­mancas, para manter os ancinhos de arrasto numa posição oblíqua.
FURA-BUEIRAS — Arame utilizado para limpar as bueiras.
Reprodução do desenho de Domingos José de Castro.
Nomenclatura da proa.
GADANHÕES — Ancinhos de arrasto, com um pente de 32 dentes.
GAIOLA — (Veja-se portinhola).
GOLFIÕES — Duas peças de madeira, com as dimensões médias de 0,22 m. de altura por 0,08 m. de largo e 0,06 de espessura, colocadas sobre a cobertura do castelo da proa. Servem para amarração da sirga, descanso dos ancinhos, das varas, do ferro ou para a fixação do respectivo cabo, quando fundeado o barco. (O mesmo que mãozinhas).
LABOIROS — Pequenos montes de moliço juntos com os ancinhos de apanhar, nas praias e nas marinhas de sal.
Reprodução do desenho de Domingos José de Castro.
Nomenclatura da ré.
LADRA — (Veja-se matola).
LAMBAZ — Compõe-se dum cabo de madeira, com o comprimento médio de 1,50 m., tendo, numa das extremidades, sobrepostos e pregados, vários pedaços de trapo. Serve para a lavagem do barco.
MALHADAS — Terrenos ligeiramente inclinados, situados à beira-ria, onde se descarrega o moliço para lhe ser extraída a percentagem de água, que constitui uma sobrecarga inútil.
MÃOZINHAS — (Veja-se golfiões).
MARÉ DE MOLIÇO — Percursos de arrasto necessários para completar o carregamento do barco. Quantidade de moliço colhido durante uma maré ou durante um dia de trabalho.
MARISCAR — Colher o moliço do fundo com os ancinhos de apanhar, estando o barco parado.
MASTARÉU — Mastro com a altura aproximada de 5,50 m., onde se arma o traquete, usado, eventualmente, à proa.
MATOLA — Barco moliceiro mais pequeno, com apro­ximadamente 10 m. de comprimento. Tem os bor­dos mais altos do que o moliceiro tradicional, para compensar no que respeita a capacidade de carga, o que lhe falta em comprimento. Não tem painéis decorativos, sendo o casco totalmente embreado a pez negro. Pequeno barco de 3 m. de comprimento, manejado à vara, que, antigamente, era utilizado para o carregamento do moliço colhido em locais, onde não podia chegar o moliceiro, como, por exemplo, nas praias ou sítios de pouca profundidade. Estes pequenos barcos também eram conhecidos pela designação de ladras.
MOIRÃO — Vara de 4 a 6 m. de comprimento, que se fixa no fundo da ria e serve para atracação do barco.
MOITÃO DA BICA — Roldana, onde se fixa o bolinão.
MOLICEIRO — Nome do barco e do próprio tripulante.
MOLIÇO — Vegetação submersa da Ria de Aveiro, sem distinção de espécies, que a seguir se discriminam: Carqueja, Carrapeto, Cirgo, Corga, Erva, Erva de Arganel, Estrume Novo, Fita, Folha, Folhada, Limo, Mormassa, Mormo, Musgo, Papeira, Pinheira, Pojos, Rabos, Seba, Sirgo e Trapa.
MOSCAS — Fios que fixam a mura à vela.
MOTAS — Parapeitos de descarga do moliço, de reduzidas dimensões. Valas de água arrendadas pelos moliceiros, para a apanha do moliço.
MURA — Cabo que debrua a parte superior e inferior da vela.
ORELHA — Peça de madeira, situada por estibordo, junto à cinta, atrás do painel da proa. Por cima desta peça e fixada na cinta, há uma pequena corrente de, aproximadamente, 0,3 m., que termina por um gancho adap­tável a uma argola, situada a 0,2 m. Este con­junto, orelha e corrente, tem a dupla serventia de prender o barco ao moirão e evitar que este danifique o costado, pelo atrito resultante da agitação das águas.
OSTAGA — Cabo fixado à verga, que serve para içar a vela.
Reprodução do desenho de Domingos José de Castro.
Padiola
PÁ DE BORDA — Prancha de pinho, com o comprimento de 2,3 m., variando na largura: 0,7 m., 0,8 m. ou 1 m. Serve de quilha, quando o barco bolina, e coloca-se no bordo, por sotavento, meia mergulhada na água e segura por cabos que, a partir de ambos os orifícios abertos na sua extremidade superior, vão enlaçar-se na parte inferior do mastro. Cada embarcação possui 3 pás, que dão, também, serventia de prancha; com este fim, um dos lados é aparelhado com breu pulverizado de serradura, para lhe dar uma melhor aderência. (O mesmo que toste).
PADIOLA — Espécie de escada, que se compõe de 2 varas paralelas, sensivelmente fusiformes, com o compri­mento aproximado de 2 m. e ligadas, entre si, por 6 ou 8 travessas de 0,5 a 0,6 m., também fusiformes, colocadas a espaços iguais de, aproximadamente, 0,15 m. É transportada por dois homens e serve para a descarga do moliço. Quase sempre acompanha a embarcação, dependurada na proa, por bombordo.
PAINAS — Dois estrados iguais, que cobrem o vão entre as duas primeiras cavernas de água, ajustadas no sentido do comprimento. Têm a função de lareira.
PANEIRO — Estrado situado à ré, sob o lugar do arrais. A última tábua, costaneira volante, é desligada, com o propósito de facilitar o levantamento do paneiro.
PAU DAS TIRA-VIRAS — Pau cilíndrico, que se coloca encostado ao barrote da proa, fixado ao argolão por uma corda e que tem, na parte superior, uma ranhura circular, por onde passa a tira-vira.
PAU DOS PONTOS — Vara quadrangular, com 1,5 m. de comprimento, que tem marcadas, por incisão, as medidas que orientam o Mestre na cons­trução de todos os barcos. Constitui uma rudimentar régua de cálculo e tem por imediato auxiliar um cordel vulgar — e nada mais.
PERNAS DO BOLINÃO - Seis cordéis que unem o bolinão à vela.
PINTALHAS — Canas ou ramos de árvore, espetados no fundo da ria, que servem de balizas de sinalização.
Reprodução do desenho de Domingos José de Castro.Reprodução do desenho de Domingos José de Castro.
Motivos decorativos.
PIQUE — Ponto mais alto e estreito da câmara do castelo da proa, que tem a singular serventia de arre­cadar o pão, a vela do barco e cabos.
PODOA — Utensílio de bordo que serve para partir lenha e aguçar os dentes dos ancinhos.
POR BAIXO DO VENTO — Por sotavento.
POR CIMA DO VENTO — Por barlavento.
PORTINHOLA — Pequena gaveta, situada logo à entrada da cheleira de estibordo, fechada à chave, para arrecadação dos documentos de bordo e algum outro objecto de valor. (O mesmo que gaiola).
RAPÃO — Quando o pente dos ancinhos de arrasto se parte pelo meio, aproveitam-se essas metades, aplicam-se-Ihes cabos de cerca de 2 m. de comprimento e formam-se estes ancinhos, geralmente empregados para apanhar o moliço, a pé, nos cabeços que a baixa-mar deixa a descoberto.
RAPUCHO — Ponteiro em ferro, com cerca de 0,2 m. de comprimento, que serve para tirar os dentes partidos dos ancinhos.
Reprodução do desenho de Domingos José de Castro.Reprodução do desenho de Domingos José de Castro.
Reprodução do desenho de Domingos José de Castro.
Motivos decorativos.
RIZES — Ilhós abertos nas costuras da vela, por onde passam cordéis, com o mesmo nome, que servem para reduzir a superfície do pano.
SIRGA — Cabo que serve para puxar o barco, quando este navega contra a corrente ou contra o vento, junto às margens. (O mesmo que tira-vira, quando utilizada com as funções desta).
TAMANCAS — Peças de madeira, com o comprimento aproximado de 0,4 m., que se encaixam, nas encalas, numa posição horizontal. Servindo de contra­cunha, conjugam as suas funções com as das for­cadas, para manter os ancinhos de arrasto numa posição oblíqua.
TIRA-VIRA — Modalidade de condução e nome do cabo empregado para tal fim. Prende-se a tira-vira numa das extremidades do xarolo, faz-se passar, seguida­mente, pela ranhura do pau das tira-viras e amarra-se, por fim, na outra extremidade do xarolo. Daqui resulta que ambos os tripulantes podem, ao mesmo tempo, trabalhar com as varas e governar o barco de qualquer ponto onde se encontrem. Este cabo e modalidade de condução também são designados por sirga.
TOSTE — (Veja-se pá de borda).
TRAQUETE — Vela pequena usada, eventualmente, à proa, içada no mastaréu.
TRASTE — Prancha fixada às dragas, por cima da coxia, com um orifício central, por onde passa o mastro. É articulada longitudinalmente por dobradiças, para facilitar o arrear do mastro.
TROÇA — Cabo que fixa a vela ao mastro, na parte superior.
UTENSÍLIOS DOMÉSTICOS DE BORDO — Um fo­gareiro de ferro, um caldeiro de ferro ou folha, várias tigelas e palanganas de barro vermelho vi­drado, colheres de folha e garfos de ferro, uma bilha de barro vermelho ou barril de madeira com pega de ferro, para a água, um podão, esteiras e roupa da proa, constituída por mantas de agasalho e cobertas de trapo.
Reprodução do desenho de Domingos José de Castro.
Motivos decorativos.
VARAS — Varas de pinho de 4 a 6 m. de comprimento, que servem como meio de propulsão do barco.
VARÃO — Ferro em que se prende a escota e é fixado, interiormente, por estibordo da ré; este varão arma na respectiva fêmea, colocada por bombordo, em local correspondente. Fora das ocasiões de serventia e com o fim de facilitar a passagem dos tripulantes, arma, então, na fêmea de descanso, situada a estibordo.
VELA CAMBADA — Vela colocada por bombordo, ao contrário do que é usual.
VERGA — Vara de eucalipto, com o comprimento de 4 m., onde se prende a vela com os envergues. (O mesmo que envergue).
VERTEDOIRO ou VERTEDOURO — (Veja-se escoadoiro).
XAROLO — Vara de pinho ou de eucalipto, com 2,5 m. de comprimento, que atravessa a parte superior do leme e nas extremidades da qual se prendem as pontas dos cabos do leme.


Mapa estatístico da existência de barcos moliceiros

Ficha Técnica

TÍTULO
Moliceiros

AUTORDiamantino DiasEncarregado do Posto de Turismo
da Câmara Municipal de Aveiro

FOTOGRAFIAS

CAPA
Platão Mendes

INTERIORESCarlos Alberto Ramos

EDIÇÃOComissão Municipal de Turismo de Aveiro
Aveiro

IMPRESSÃOLitografia Anadia

ANONovembro de 1971

Número de Páginas48

Reconversão para InternetHenrique J. C. de Oliveira
Aveiro, Maio de 2008

Suporte InformáticoSecª José Estêvão
Prof2000
2008
Anos
Barcos existentes
19351949
1959
1969
 
.........................  1008..........................  794
..........................  542
..........................  164


www.prof2000.pt

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