Para despertar do eventual "torpor" em que tenhamos caído por via de atitudes político-partidárias, neste final de Verão, é sempre de estimar a leitura de um poeta que em vida se considerou "fora de moda", mas cuja mensagem ainda provoca as consciências para melhor: Alexandre O’Neill (1924-1986)
“O meu estilo é não ter estilo (…) Sou parecidíssimo com a minha poesia. Mesmo no dia-a-dia, no próprio trabalho. Entre a minha expressão coloquial e a minha expressão poética, não há distância”, afirmou o poeta em 1968. Escriturário na Caixa de Previdência dos Profissionais do Comércio e depois redactor de publicidade, começou a escrever prosa e poesia para vários jornais.
Ficaram famosos alguns slogans que criou, ainda que por vezes chumbados por quem lhos pedia, como é o caso de "Há mar e mar, há ir e voltar”, encomendado pelo Instituto de Socorros a Náufragos, para uma campanha de prevenção de afogamentos, que terá recusado a primeira versão criada por O’Neill: "Passe um verão desafogado”.
“Vá de metro, Satanás”, “Com colchões Lusospuma você dá duas que parecem uma” e “Bosh é Brom”, são célebres slogans (que nunca chegaram a ser usados) atribuídos a O’Neill.
“Vá de metro, Satanás”, “Com colchões Lusospuma você dá duas que parecem uma” e “Bosh é Brom”, são célebres slogans (que nunca chegaram a ser usados) atribuídos a O’Neill.
O poeta desconcertante, segundo os estudiosos da sua obra, respondia às críticas com humildade, modéstia e autodepreciação: “Bem sei que tenho sido, não poucas vezes, derrotado pela pressa, que me espojo na anedota ou a embalo na folha-de-flandres da conversa, bem sei que muitos dos versos nem para atacadores”, afirmou.
Alexandre O’Neill descendia de uma família letrada e bem posicionada na sociedade. Tinha uma avó escritora e o seu pai, antes de ser bancário, quis seguir Belas Artes. Pouco dado aos estudos, escrevia muito e ainda jovem foi distinguido com vários prémios. Membro fundador do Grupo Surrealista de Lisboa, pertencia também a várias tertúlias e cafés literários.
Atento à situação à sua volta, esgrimia a escrita como uma arma, e chegou a estar preso pela PIDE (Polícia Política), como daquela vez em que foi ao aeroporto esperar a escritora Maria Lamas que regressava de um Congresso Mundial da Paz em Viena (1952), apesar de não ser militante político.
Era essencialmente um artista, sensível às raízes da cultura portuguesa em todas as versões possíveis, como se poderá aferir pela letra do fado "Gaivota" destinada à voz de Amália, com música de Alain Oulman: "Se uma gaivota viesse / Trazer-me o céu de Lisboa / No desenho que fizesse / Nesse céu onde o olhar / É uma asa que não voa / Esmorece e cai no mar (...)"
publicado por j.gouveia
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