Quando se fala de 11 de setembro, são os ataques islamistas nos Estados Unidos, em 2001, que vêm de imediato à memória das pessoas. Mas convém nunca esquecer que, anos antes, em 1973, no Chile, nessa mesma data, um golpe de estado militar, curiosamente feito com a cumplicidade e impulso dos americanos, levou a um número de mortos similar, instituindo um regime sinistro que torturaria e perseguiria dezenas de milhares de cidadãos.
Um dia, em Brasília, o nosso adido de Defesa, Duarte Torrão, organizou na embaixada uma cerimónia comemorativa do dia das Forças Armadas portuguesa. Ao ser apresentado ao seus colegas militares presentes, dei-me conta de que o Adido de Defesa chileno se chamava Prats. Achei curioso.
Carlos Prats era o nome de um general democrata chileno, que havia antecedido Pinochet como chefe das Forças Armadas e que fora assassinado, com a mulher, em Buenos Aires, em 1974, com uma bomba colocada no seu carro pela DISA, a polícia política de Pinochet. Curiosamente, havia sido Prats quem recomendara o "apolítico" Pinochet, seu amigo, a Salvador Allende.
Ao tempo dessa cerimónia em Brasília, o Chile vivia já em plena normalidade democrática. Perguntei a Duarte Torrão se o colega era, por acaso, familiar de Prats. "É filho, mas não me parece ter herdado muito do pai", disse-me, cripticamente, o nosso adido de defesa. Aproximei-me do militar chileno, creio que coronel, não revelei que sabia da sua ascendência e coloquei-lhe a questão: "É familiar do general Prats?". Confirmou-me que sim. Retorqui que tinha grande admiração pelo pai dele, o qual, tal como o seu antecessor, o general Schneider, haviam sido assassinados pela extrema-direita.
Notei que o coronel Prats agradeceu sem um grande entusiasmo e, quando lhe perguntei em que ano tinha entrado para a Academia Militar chilena, para perceber como fora a sua carreira durante o tempo de Pinochet, "saiu de fininho" da conversa. "Eu bem lhe tinha dito!", disse-me depois Duarte Torrão. "Este Prats pouco tem a ver com o pai". Fiquei mesmo a pensar quanto teria a ver, afinal, com o regime que lhe matara os progenitores.
Lembrei-me desta história neste 11 de setembro, Há 44 anos, dia por dia, chovia em Santiago.
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