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terça-feira, 19 de agosto de 2014

A nacionalização do BES através de uma vigarice a que chamam na Europa engenharia financeira.

A nacionalização do BES através de uma vigarice a que chamam na Europa engenharia financeira.


BES SEGUE PRA BINGO 
Por Clara Ferreira Alves 

Não escrevi até este momento uma linha sobre o BES porque nunca acreditei numa 
palavra do que foi dito sobre a excelência da regulação, a inexistente necessidade de 
recorrer ao dinheiro dos contribuintes, a garantia do benzido nome de Vítor Bento como 
solução de estabilidade, a tremenda almofada financeira, etc., etc., etc.
Também nunca me soou bem a frase de Passos Coelho sobre os “privados “ serem 
obrigados a resolver os seus problemas sem intervenção política e muito menos de 
dinheiro público. Alinhei nesta demagogia durante cinco segundos e arrependi-me 
logo. Cheguei a elogiar Passos Coelho pelo modo como resolvera a crise. Sou uma 
imbecil.

O porta-voz Marques Mendes, fervendo de indignação contra a “anterior administração”, 
veio dizer que os acionistas perdiam tudo e que Ricardo Salgado e a “administração”, 
whatever that means, tinham desfeito 1500 milhões em diasEstamos conversados 
quanto à excelência da regulação.
Se bem me recordo, essa administração era para ser mantida em funções durante mais 
um mês. A avaliar por estes cálculos, estoiravam mais 15 mil milhões. Enquanto a justiça 
ponderava deter ou não a sua ex-“testemunha” Salgado e impedi-lo de destruir caixas 
marcadas com papéis “para destruir”, Salgado ia destruindo o BES, soubemos pelos jornais.
Sozinho, parece. Sem dar cavaco, salvo seja. E, claro, foi-nos dito todos os dias, por 
reputados especialistas e a “nova gestão”, que o BES nada tinha a ver com o GES e que 
o BES estava bem e o GES estava mal e que o BES era sólido e tinha rácios de capital a 
dar com um pau.

De repente, estes reputados berraram pela recapitalização imediata do banco, tão 
imediata que tinha de ser feita no primeiro fim de semana das férias, pela calada 
da noite. Não aguentava mais 24 horas sem tratamento da tal infeção que não existia. 
Nem febre o BES tinha. Costa era um génio. Bento um crânio. Coelho um herói. Os três 
estarolas. A “solução” rebentou pela voz do porta-voz Mendes. Estranho método para 
anunciar publicamente a nacionalização do BES e a necessidade (através de uma 
vigarice a que chamam na Europa engenharia financeira) de sacar aos contribuintes 
e defraudar os pequenos acionistas e aforradores que confiaram no “regulador” e 
avulsos. Olha, diz ao Marques Mendes para lançar a bisca! E, estranhamente, a primeira 
pessoa que denunciou a vigarice foi Santana Lopes, que topou o esquema de alto a baixo.

Como o Governo não quis usar a palavra nacionalização e tem medo dos riscos eleitorais 
e do rombo no défice, usou a nacionalização que não é nacionalização.
O Governo é perito em esquemas. Um tal de Fundo de Resolução, cuja parca existência 
desconhecíamos, ia salvar “o BES que não tinha nada a ver com o GES”. O problema é 
que o buraco do banco cheio de rácio era de 4,9 mil milhões. Como diria o saudoso 
Barroso europeu, “uma pipa de massa”. E como o dito Fundo, uma espécie de saco azul 
dos bancos e da sua incomensurável solidez, só tinha 182 milhões, eles põem mais uns 
cobres simbólicos e nós entramos com a pipa de massa através do Fundo de 
Recapitalização da troika, dinheiro público.
Parece que o belíssimo BES de anteontem vai ser dividido em BES bom, Novo Banco 
(marca registada do BCP?) e BES mau. O bom é o que o Fundo injeta a massa pública 
emprestada ao Fundo. Leitor, faça as contas. Até ser vendido, dando de barato que será 
vendido, o BES bom paga juros deste empréstimo, mas como o BES bom não tem cheta 
é o Fundo-acionista-único-controlado-pela-banca que paga juros ao Fundo, topam? E os 
juros não são os dos CoCos, não dão lucro ao Estado.
Depois, o BES bom é vendido e quem comprar devolve a massa ao Fundo e “se tudo 
correr bem” e formos muito felizes, aos contribuintes.
Ora como o Fundo de Resolução é participado e controlado por todos os bancos do 
sistema, é um sindicato de bancos que ganha.
Qual a garantia que o BES vai pagar?
Nós. Porque os bancos não vão adiantar a cheta sem garantia pública. Como o Estado 
não participa na gestão do Fundo, que se torna privado com dinheiro público, perde 
controlo.
Nada correu ou vai correr bem nesta história opaca que gera a maior e mais arriscada 
concentração de poder financeiro de que há memória. Só corre bem para os advogados 
dos processos. E para a Europa, muito afeiçoada a cobaias lusas.

No BES mau ficam os tóxicos. E ficam apeados os acionistas, incluindo os pequenos e 
médios acionistas que nunca puseram os pés numa AG e só viram o dr. Salgado dono 
disto tudo e os drs. Costa e Bento e Coelho génios disto tudo, na televisão. Investiram em 
ações de um banco “sólido,” garantiram-lhes. Foram aconselhados a aumentar o capital 
do banco. Eu não tenho ações do BES, e considero que isto é um rombo na 
confiança no sistema financeiro e um roubo. 

NOTA: ESTA CRÓNICA FOI ESCRITA NA SEGUNDA-FEIRA. ATÉ SÁBADO…
Jornal Expresso 2180, 9 de Agosto de 2014


http://apodrecetuga.blogspot.com

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