Ali Vai o Homem
Hermenegildo, o homem, depois de um apurado estudo sobre a sua condição socio-económica, depois de um extensivo corte nas gorduras quotidianas, de um apertar de cinto radical nos vícios, de um auto-controlo espartano na alimentação, Hermenegildo, o homem, criativo que era, sonhador de nascença, decidiu dar um passo mais à frente na corrida contra a dívida, que o senhor primeiro ministro dizia ser de todos, ainda que ele não devesse nada a ninguém.
Hermenegildo, o homem, naquela manhã de nevoeiro, tomou a decisão de poupar no oxigénio. Dali em diante não respiraria mais às terças e quintas. Dois dias por semana: um pequeno esforço para o indivíduo, mas um salto gigantesco para a Nação. Hermenegildo, o homem, seria o novo farol de Alexandria da poupança nacional e quiçá do mundo, um exemplo a seguir, uma história para se contar às criancinhas na escola primária em dias de chuva. Ali vai Hermenegildo, diriam as pessoas, o homem que deixou de respirar para ajudar o país, e aplaudiriam, e Hermenegildo, modesto que era na sua criatividade e engenho, acenaria um tanto ou quanto incomodado com a distinção.
Na manhã seguinte à manhã de nevoeiro em que tomou a decisão, era uma terça-feira e também estava nevoeiro. Hermenegildo levantou-se, tomou o café sem açucar, sentou-se na cozinha e deixou de respirar.
O sucesso foi imediato e superou todas as expectativas, um dias apenas e nunca mais Hermenegildo teve que repetir o sacrifício.
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