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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

81. Ismael (6) - Boina, dia da mãe e sócio do Benfica


Estava a terminar o ano de mil novecentos e sessenta e seis. Ismael Gúsman tinha nascido em trinta e um e vindo com o tio para Lisboa no fim da guerra civil, apenas com oito anos de idade. No dia oito de dezembro fazia o que fazia em todos os domingos e dias santos. Vestia a sua melhor camisa, o fato preto de três peças e os sapatos de verniz que eram bem limpos e abrilhantados com azeite na véspera. Saía cedo de casa e, como a D. Laurentina, uma trintona bonita de cabelos negros e olhos cor de azeitona, tinha ficado sem o seu homem na queda dum andaime nuns prédios altos que andavam a fazer lá para Lisboa, como ela dizia, ele acompanhava-a à missa em Azeitão. Hoje era dia da mãe e Ismael, que já não se lembrava da sua, dizia mesmo que não sabia se a tinha conhecido, iria rezar-lhe três Avés Maria e um Padre Nosso. Depois apanhariam a carreira e iriam comer uma caldeirada a Setúbal.  Foi nesse momento, embrenhado nestes pensamentos, que Ismael Gúsman se lembrou que hoje não podia ser, que hoje não poderia acompanhar D. Laurentina à igreja.

Tinha sido no início mês passado que o senhor Augusto parou lá pela tasca, num dia que fora buscar mercadoria aos armazéns de S. Domingos a fim de abastecer a sua venda de roupas. Carregado com dois pesados embrulhos de roupa interior e meias angorá, que se vendiam muito bem naquela época, tinha descansado os pulsos lá no senhor Ismael saboreado um pastelinho de bacalhau superiormente confecionado pela Fernandinha e bebido um tintinho do Cartaxo. Depois falou-lhe que os garotos iam ser batizados na igreja de S. Tiago em Almada no próximo dia oito e que fazia muita questão que ele estivesse presente. A sua mulher, que na altura estava grávida de oito meses e que previa que o mais novo nascesse lá para Dezembro, insistiu muito e os miúdos lá fizeram a doutrina e agora, com doze anitos o mais velho, era já hora de serem batizados. E haveriam de fazer a primeira comunhão, se Deus quisesse. Pela amizade que tinham um pelo outro não poderia faltar ao batizado dos garotos.

Quando o meu pai conheceu o Ismael num torneio de chinquilho que o Pombalense foi fazer à Quinta do Conde, estava longe de vir a imaginar que o seu filho mais velho se iria tornar um amigo do peito de Ismael Gúsman. Nesse dia Ismael, que não se esqueceu de tirar a boina galega ao entrar na igreja, rezou pela mãe dele. Assistiu ao meu batizado, partilhou do nosso lanche e à noite bebeu um bagacinho enquanto dava um abraço ao meu pai pelo nascimento do meu irmão mais novo que resolvera vir ao mundo naquele mesmo dia. Tienes alí más um xócio para o Benfica, Augusto! O meu pai sorriu e, sabendo que a minha mãe, embora não tivesse assistido ao nosso batizado estava bem e feliz com o seu novo rebento ao lado, virou de um só gole o seu copinho de aguardente.

Constou-nos mais tarde que no regresso à Quinta do Conde, o Ismael, por não a ter levado à caldeirada, passou a noite toda em casa de D. Laurentina a pedir-lhe perdão.

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