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domingo, 7 de setembro de 2014

OLHÃO NA PALMA DA MÃO - JOSÉ BERNARDINO ARTUR UM ARTISTA DE MINIATURAS DA CIDADE DA RESTAURAÇÃO

Vem já de criança a paixão pelas miniaturas, mas certo dia, “há um bom par de anos”, José Bernardino Artur viu uma maquete em Faro que o impressionou. Resolveu fazer algo parecido, uma casa térrea algarvia para oferecer como prenda de Natal à mãe. “Foi a primeira que fiz”.
Depois, “fui sempre colocando desafios a mim próprio, e à medida que os superava, fui sempre aumentando o grau de dificuldade”, diz.
“Há muita gente a fazer quadros, há quem faça barcos, mas casas ainda não vi ninguém fazer”, admite. O entusiasmo teve várias fases ao longo da vida, conforme também o tempo que tinha disponível.
Este ano, este pintor de profissão viu-se sem trabalho. Com a construção civil em crise, aproveitou o tempo livre para se dedicar às miniaturas.
“Eu tenho de por isto cá para fora. Às vezes, nem almoço tão pouco. A cada passo que dou, parece que tenho de dar outro e mais outro!”, brinca. As miniaturas são feitas na mesa da sala ou na marquise, já que não tem uma oficina ou um espaço à parte no seu apartamento.
Uma das que acabou de fazer foi o balneário público, junto à estação de caminho-de-ferro de Olhão. Demorou dois meses a construir. Não usa ferramentas, à excepção de um pequeno berbequim eléctrico, “quando preciso de furar alguma coisa”.
Autodidacta, rabisca os detalhes de cada projecto numa sebenta antes de começar. Começa por erguer as paredes. O olho traça a escala. Os materiais que usa casam o engenho com o que há à mão. Peças do dia-a-dia, restos de madeiras ou coisas pequenas como dedais que serão os sinos da igreja matriz que está a construir. Cartão, “pladur” e até bagas e sementes compõem esta arquitectura de réplica, às vezes fiel ao original, às vezes com um toque imaginário para embelezar a peça.
O avô era homem rijo do mar, e a avó vendia pão e trabalhava nas conservas. Vieram de barlavento e em Olhão ficaram, no carismático bairro da Barreta, onde cresceu. O pai jogou no Olhanense, glória antiga. Aliás, um dos trabalhos que se orgulha de ter feito é a antiga sede, que se desmoronou em 2001.
“Ao lado da antiga sede havia uma casa, acho que era também um edifício notável, pois tinha uma tabuleta, na fachada. Foi derrubada para fazer um prédio. Como consequência, a sede do Olhanense ruiu”. José Artur fez recentemente essa casa, para contar a história.
E tem pena de ver este património desaparecer? “Sim, tenho. Eu não gosto nada da arquitectura moderna. As casas hoje parecem caixas, umas em cima das outras, não têm beleza nenhuma. Repare que antigamente, as coisas eram trabalhadas de outra forma, à mão. Os anos passam e as casas antigas continuam bonitas, ainda hoje”, compara.
“Não compreendo porque é cada vez que vou ao estrangeiro, vejo que há gosto em preservar o que é antigo. E nós aqui não valorizamos nada. É tudo para derrubar”, lamenta.
“Não é de admirar que os estrangeiros gostem tanto de Olhão e comprem as casas antigas que ainda restam, de arquitectura tradicional, para as manter. Não derrubam nada para fazer coisas modernas ou apartamentos”, diz.
“Há muitas casas que eu gostava de construir miniaturas, sobretudo das que já não existem. Mas é difícil, porque não há muitas fotografias e quase sempre apenas mostram a fachada principal”, revela.
Quando o Olhanense, seu clube do coração, comemorou o centenário, ofereceu uma maquete do estádio Padinha, tal como era há 100 anos atrás. Está no museu do clube. Mas é das poucas peças com tal previlégio.
À falta de espaço para guardar/ mostrar o seu artesanato, Artur têm trabalhos espalhados em sítios tão inesperados como a montra de uma lavandaria de uma familiar e o escritório onde a esposa trabalha.
Em Maio passado, a agenda Municipal de Olhão dedicou-lhe um destaque. Mas até à data da nossa entrevista, não recebeu nenhum convite para expor, nem temporária, nem permanentemente a sua colecção.
“Sem dúvida que gostaria de ter as minhas casas expostas no Museu de Olhão. Isto faz parte da cidade, da nossa memória, foi tudo feito por um filho da terra. Penso que é mais interessante ver uma miniatura do que apenas uma fotografia na parede”.
Alguns estabelecimentos comerciais fizeram-lhe encomendas de miniaturas: a conhecida tasca popular “Sete Estrelas”, a casa de mariscos “Isidoro” e o pequeno café “Búzio”.
Aprendizes? “Não digo que não apareça para aí um ou outro carola como eu, mas é difícil. A malta nova tem muita tecnologia para se entreter e isto requer muita paciência, muita dedicação, muito gosto para fazer estes trabalhos.”
Próximos projectos? “Quero fazer uma réplica do antigo matadouro de Olhão, antes que o derrubem de vez”, já que este edifício está em muito mau estado, fechado e esquecido.
O chalet João Lúcio também é um objectivo. “Não sei se consigo suportar o trabalho porque é muito intricado, vai precisar muito investimento em tempo e material. Gostava também de fazer o edifício da Câmara Municipal de Olhão”, conclui.







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