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segunda-feira, 18 de abril de 2011

OS TEMPOS QUE CORREM

É natural que, face à crise e à intervenção do FEEF (CE, BCE, FMI), se estabeleçam comparações com a intervenção do FMI nos inícios dos anos 80. Como é de esperar que ressurjam os discursos – e as emoções… - sobre o recorrente “falhanço do país”.
Acontece que o Portugal dos inícios dos oitentas quase não se pode comparar com o de hoje. Se excluirmos algum dinamismo, na cultura e nas sociabilidades, que se viveu então – alegre e atrevido e mais cosmopolita, em reação a um certo sisudismo hiperpolitizado da revolução – Portugal era um lugar desgraçado. Melhorámos, e muito, em todos os índices de desenvolvimento, incluindo os que têm a ver com o ar que se respira e não só nos aspetos materiais.
Acontece também que o discurso recorrente sobre o país falhado é desadequado em dois aspetos. Em primeiro lugar, porque muitos (todos?) os países passaram ou podem passar por situações de “falhanço”; e sem linearidade, antes com altos e baixos. Pense-se nos EUA da Grande Depressão, nos retrocessos que se vivem no Reino Unido agora, na Irlanda da fome da batata, na do tigre celta e na de hoje. Etc, etc. Em segundo lugar, porque muitas outras sociedades alimentam imagens de si mesmas do mesmo tipo: pense-se no Brasil, onde coexiste sempre um discurso sobre o falhanço e outro sobre o potencial, por exemplo.
Vamos passar tempos muito, muito duros. Mas não podemos continuar a ver-nos com as lentes dos que, ainda hoje, parecem ter parado no século XIX do Ultimatum britânico ou no colapso da primeira República. Temos de ter uma visão mais contemporânea, mais ciente de que tudo na vida acontece em altos e baixos, em ciclos e contraciclos, e que ninguém está destinado a nada – a não ser ao livre arbítrio e à capacidade de arregaçar mangas. Tarefas para as quais -  e para lá da fundamental exigência e participação democráticas - o sentido de humor, a criatividade e o sonho ajudam. Muito.
Nas últimas duas décadas cometemos asneiras. Vivemos de crédito, sonhámos com a benesse fácil da UE e do Euro? Sim. Escolhemos apostas e prioridades erradas? Sim. Vingámo-nos de longos períodos anteriores de humilhação? Sim. Mas exigimos mais, melhorámos muito, construímos vidas públicas e privadas mais próximas do que queríamos e merecíamos, mais afastadas do que nos diziam ser o nosso destino. Agora trata-se de fazer o mesmo, com a sabedoria duramente adquirida de sabermos por onde não devemos nem podemos ir.
Falhou um modelo e falhou um modo. E falharam ambos em circunstâncias de falhanço de modelos e modos que estão para lá da nossa capacidade de os gerir e de lhes reagir. Se não devemos sacudir a água do capote, e culpar o “mundo”, também não devemos aceitar a narrativa deste sobre nós. Só alimentaríamos o pior das piores ideias que temos de nós mesmos - preguiça, dependência, falta de visão e planeamento, desenrrascanço e fé num papá que nos salvará.
Precisamos tanto dos velhos discursos e análises derrotistas, provincianamente derrotistas, com que nos massacram em crónicas de jornais e debates nas TVs, como precisamos do racismo de alguns norte-europeus sobre as supostas incapacidades dos povos do Sul. Precisamos, sim, de autocrítica sobre as escolhas que temos feito, nas nossas vidas privadas e públicas, de crítica sobre os defeitos éticos nas nossas vidas privadas e públicas, de crítica sobre o modo irracional e não-democrático como funciona a atual, a recente fase quer do capitalismo quer da Europa. Precisamos disso não para baixar braços mas para subir a montanha outra vez, como a que, bem vistas as coisas, subimos desde os anos 70.
Subir a montanha outra vez. Com melhor equipamento - que isto já não é os anos oitenta. Assobiando, apesar de tudo e por causa de tudo. Upa!

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