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quarta-feira, 4 de julho de 2018

UM BOM LIVRO E UM BOM FILME - Resenha: O menino do pijama listrado

Resultado de imagem para AS HISTORIAS DE MENINOS POBRES



Resenha: O menino do pijama listrado

Depois do filme, um comentário comparando as versões em papel e película…
Um olhar “inocente” sobre os campos de concentração
Andreia Santana
Li O menino do pijama listrado em menos de 12 horas. Não dá para largar o livro depois que você começa, simples assim. Ambientado na II Guerra Mundial, um tema sobre o qual tenho grande curiosidade, o livro é um poema. Triste e ao mesmo tempo belo. Comovente, mas nem um pouco piegas. A infância é mostrada em toda a sua inocência, mas não é uma infância subestimada. É a inocência de descobrir o mundo, questioná-lo, chocar-se, um não compreender que guarda uma compreensão intuitiva, inconsciente.
John Boyne é um autor que eu não conhecia e antes de ler o livro, assisti ao filme, em 2009. Após conhecer a história original, afirmo ter visto uma das melhores adaptações de um livro para o cinema nos últimos anos. Do elenco à forma de tratar a história, o filme teve um cuidado e um respeito com o livro que há muito não vejo no cinema.
Conversando com algumas pessoas que também viram o filme, mas que na ocasião não tinham lido ainda a obra (como eu) surgiu o questionamento sobre o desfecho da narrativa. Sem antecipar aqui o que acontece, digo apenas que acredito que aquele final era necessário para sustentar a história construída desde o início. É o mesmo desfecho do livro e por mais que doa, não poderia haver outro.
Particularmente, gosto de finais que não fazem concessões à emotividade e que por isso, não sacrificam a coerência de uma boa história. Assistindo aos extras do filme, vi uma entrevista com o diretor Mark Herman, em que ele traduz muito bem minha impressão tanto da obra em papel quanto da sua transposição em película: “não é uma produção sobre a II Guerra Mundial, o conflito é o pano de fundo para mostrar a história de uma família alemã e das consequências do nazismo, muitas trágicas, para a estrutura familiar como um todo”.
Diria ainda que é um livro (e um filme, agora não dá para dissociar um do outro) sobre a perda da inocência diante de um flagelo como foi esta guerra em particular. Se pensarmos sob o ponto de vista sociológico (levando em conta o modelo adotado pela nossa sociedade), em que a família é o primeiro núcleo ao qual somos apresentados, abalos aí, nesta base, comprometem toda a estrutura sobre a qual a nossa sociedade é estruturada, comprometem principalmente a ideia de civilização como a linha que separa o animal humano da barbárie.
Admiro os livros e os filmes que me colocam para pensar nessas questões. São instigantes, provocadores na medida em que nos levam a reavaliar conceitos. Sem pretensões de construir uma crítica especializada, meu envolvimento passional com os livros e os filmes não permite tal reflexão, daí ter desistido de virar “crítica” na estrita tradução, o que posso dizer de mais técnico sobre O menino do pijama listrado é que o filme tem uma fotografia que nos remete à década de 40 do nazifascismo alemão. A luz é muito limpa, as cores esmaecidas, como que envoltas em camadas discretas de cinza. Mais do que as roupas e carros de época, o que nos transporta para a Berlim nazista é a cor e a luz. O roteiro também é enxuto, sem grandes dramatizações, é um cotidiano de 70 anos atrás, envolto em situações que se por um lado tiveram repercussões mundiais até hoje, por outro também foi marcado por centenas de tragédias familiares.
Os atores, principalmente as duas crianças protagonistas, são de uma correção e de uma entrega aos seus papeis que poucas vezes vi em meninos tão pequenos. Parecem anjos caídos em meio ao caos. O olhar dos dois é qualquer coisa de desconcertante. E ambos tinham só nove anos na época (o filme é de 2008 e o livro de 2007). Os atores adultos, de forma muito digna, se colocam na posição de coadjuvantes para que aquelas duas crianças conduzam a narrativa. No livro, os adultos são os coadjuvantes, sempre vistos e interpretados por Bruno e por Schmuel. O filme me emocionou, assim como o livro, mas foi uma emoção diferente, uma emoção que nasce do eterno desejo humano de contrariar o destino, mesmo quando ele teimosamente recusa-se a mudar.
Já falando especificamente do livro, trata-se da tradução de tudo isso aí acima só que transposto para o reino das palavras. A narrativa simples, poética e delicada de John Boyne tem gosto, tem cheiro e tem cor. Os diálogos entre Bruno e Shmuel, respectivamente o filho de um comandante nazista e um menino judeu preso em um campo de concentração, são de um lirismo e de uma pureza de fazer chorar, mas também de fazer rir justamente pela inocência que sabemos não existir mais no mundo de hoje, 70 anos depois. Aquele grau de fantasia pertencia às crianças de um outro tempo e nos deixa, a nós adultos, muito nostálgicos. Nostalgia não da tragédia da vida dessas duas crianças, mas uma saudade infinita de um tempo que somos levados a acreditar que era mais puro.
Uma sinopse: O menino do pijama listrado conta a história da amizade entre Bruno, filho de um comandante da elite nazista, diretor de um campo de concentração, e Schmuel, um menino judeu prisioneiro neste campo. Os dois tem nove anos e até antes da insensatez da guerra, levavam vidas muito parecidas, o que fica claro pelos contrastes sutis nos diálogos das crianças e na própria realidade do campo e da casa de Bruno. O campo aliás, só aparece descrito com contornos indefinidos, visto pelos olhos de Bruno, que a princípio, acredita que o local visto da janela de seu quarto é uma fazenda onde vivem fazendeiros estranhos, que passam o dia vestindo pijamas listrados. A dureza do lugar é revelada aos poucos, quase como um jogo de esconde-esconde, em que Bruno compreende a natureza do trabalho de seu pai.
Um curiosidade: Um dado histórico muito interessante adotado na versão em filme é a utilização de trechos de um antigo vídeo de propaganda nazista, rodado em 1941, que mostrava os campos de concentração como beneméritas cidades construídas por Hitler para presentear os judeus, onde eles viviam felizes na sua segregação!! Era esse tipo de filme que passava nos cinemas alemães, numa forma de convencer a classe média do país de que a “higienização” proposta pelo III Reich era benéfica para todos! Não que todos os alemães fossem inocentes das atrocidades cometidas por Hitler, mas muitos, por medo, omissão, preconceito ou por falta de vontade de pensar por conta própria, engoliam a propaganda oficial. Sabiam a verdade de forma inconsciente, mas preferiam não vê-la.

mardehistorias.wordpress.com

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