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terça-feira, 3 de julho de 2018

Na manhã de 4 Julho de 1942, ... Cataorze balas falharam o alvo.

CARNAXIDE-4/7/2018h=CONTRA O ESQUECIMENTO (antecipo)
Na manhã de 4 Julho de 1942, ...
Catorze balas falharam o alvo.
Tombou o corpo do médico comunista; tombaram muitas esperanças de muitos pobres; tombaram muitas lágrimas de raiva e de dor.
Mas as catorze balas falharam o alvo.
Nesse tempo, em que a selvajaria política não se perfumava com odores democráticos, baleava-se um homem quando ele era bom. E o Dr. Carlos Ferreira Soares era um homem bom.
Médico de formação académica, humanista por sensibilidade, o médico Ferreira Soares conviveu apaixonadamente com os problemas quotidianos de cada ser humano, integrando-os sempre na conjuntura política e social donde provinham.
Veio, por isso, dar força aos ideais e à prática do Partico Comunista Português- vendo nele a bandeira da liberdade colectiva erguida pela ternura de cada mão calejada.
Perseguido por causa das suas convicções, que não calava nas palavras ditas nem nas palavras escritas, teve que remeter-se a uma clandestinidade de seis anos em que,
Era o povo de Nogueira e de largos arredores que disparava os alertas quando gente suspeita por aí era vista. Era no povo de Nogueira e de largos arredores que o médico ia encontrar guarida nas noites em que era perigoso dormir em casa. E foi no povo de Nogueira que o homem perseguido encontrou a companheira amada de quem teve os filhos que tanto amou.
Foram catorze balas que falharam o alvo.
Com quem ele privou, apõe à sua memória umja legenda alegre que se poderia traduzir em: “ era pequenito com quem valia a pena brincar”. Era, de facto, um homem que brincava. Como as crianças. Como os poetas.
Ria às gargalhadas – principalmente do poder. Tocava viola e cantava nas romarias em que ia com o povo: não para converter, mas porque estava convertido.
Em casa tinha o pai e tinha os irmãos que estavam a seu lado. Politicamente. Fisicamente. Era uma casa de liberdade e de coragem. È hoje, uma casa de liberdade e coragem.
Foram catorze balas que falharam o alvo.
Escreveu coisas lindas que lhe iam no coração porque a razão lhas ditava, em linguados de papel pardo. Uns foram para o Dr. Câmara Reys, da Seara Nova. Outros foram lidos a gente que de letras nada sabia, no Ateneu de Nogueira da Regedoura. Um e outros entenderam, porque é entendido quem entende.
Dava dinheiro aos pobres que o consultavam para que comprassem os medicamentos que lhes receitava. Não porque acreditasse na caridade. Mas porque a justiça tardava. E ele tinha pressa da vida. De cada um e de todos
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Hoje, vamos ao adro de Nogueira ouvir as cassetes que fazem festa da tristeza dum povo
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E ele, o povo de Nogueira e de largos arredores, há-de voltar a fazer coro com o médico comunista que vai à romaria da Senhora da Saúde. Com a viola ramaldeira, a cantar a Rosa Tirana. E com um cravo companheiro atrás da orelha.
Foram catorze balas que falharam o alvo.
A família de Ferreira Soares


 ANTÓNIO CARLOS FERREIRA SOARES [I]


O MÉDICO COMUNISTA ASSASSINADO POR UMA BRIGADA DA PVDE EM NOGUEIRA DA REGEDOURA, HÁ 75 ANOS *

[05/02/1903 - 04/07/1942]

Quando o médico António Carlos de Carvalho Ferreira Soares, filho de Inês de Carvalho e de António Ferreira Soares, foi deliberadamente assassinado à queima-roupa por uma brigada da PVDE no seu consultório, em Nogueira da Regedoura, em 4 de Julho de 1942, com 39 anos de idade, há muito que era procurado e andava fugido.

Desde, pelo menos, 2 de Fevereiro de 1937 que a PVDE andava no seu encalço por ser um dos responsáveis da organização, no Norte, do Socorro Vermelho Internacional, sendo que, segundo anotação policial, "na sua missão de médico, aproveitava as visitas  que fazia a casa dos trabalhadores para lhes incutir no ânimo as ideias comunistas, sendo vulgar aparecer vestido de fato de macaco" [ANTT, PIDE, Serviços Centrais, Cadastros / Cadastro Político Nº 8525 - "António Carlos Soares ou Carlos Soares"].

Nesse mesmo ano, em 25 de Agosto, foi julgado à revelia pelo Tribunal Militar Especial do Porto, tendo sido condenado ao pagamento de seiscentos escudos de multa e perda dos direitos políticos por cinco anos.

Em 28 de Dezembro de 1937, já claramente identificado como Secretário do Comité Regional do Douro, do Partido Comunista, continuava sem ser apanhado e foi novamente julgado à revelia em 9 de Agosto de 1938, de onde resultou a condenação a 4 anos de prisão correccional e perda dos direitos políticos por cinco anos.

António Ferreira Soares era um nome muito prestigiado e relevante na organização do Partido Comunista, tendo conseguido iludir a polícia política por mais de quatro anos e meio.

O seu assassinato não pode ser encarado um acaso do momento, bem evidente nos elementos escolhidos para o executarem.

Nota: dados recolhidos no âmbito de outras investigações e que merecem ser partilhados.



[João Esteves] 
silenciosememorias.blogspot.com

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