Texto 9A. “Frente Republicana”: a impostura em marcha! Macron ou Le Pen, o anti-republicano não é aquele que pensamos
Por Anne-Marie Le Pourhiet, Jurista, especialista em Direito Constitucional, professora de Direito público na Universidade de Rennes IRevista Causeur, publicado em 26 de abril de 2017

Manifestação de SOS Racismo contra Marine Le Pen, 24 de abril de 2017, Paris. SIPA.
Em toda a quinta República, nunca tivemos um candidato nas eleições presidenciais tão perfeitamente distanciado dos valores republicanos como Emmanuel Macron.
Sarko o ambíguo
Nicolas Sarkozy sem dúvida cultivou sempre uma ambiguidade exasperante sobre a questão do modelo republicano, permanentemente a mudar de posição ao sabor dos ventos e passando, muitas vezes dentro do mesmo discurso, desde belas frases à Lamartine escritas por Henri Guaino à promoção de interesses económicos globais com Alain Minc, de passagem com algumas provocações clientelistas suscetíveis de tirar o ar aos autênticos republicanos. A promoção da discriminação “positiva”, do secularismo “positivo”, elogio dos padres considerados como superiores aos professores, envio de Patrick Devedjian e Roselyne Bachelot à inauguração do CRAN (Conselho Representativo das Associações Negras) para aí decretar o advento do direito à diferença e o fim do modelo republicano (sim!), busca ativa e nomeação de “prefeitos muçulmanos” e até mesmo de um efémero e controverso “Comissário para a diversidade e a igualdade de oportunidades”. Tivemos o direito a tudo e ao seu oposto, tendo o apogeu da versatilidade sido alcançado quando o agitado presidente pediu a uma comissão presidida por Simone Veil para refletir sobre a inclusão da diversidade, da paridade de género, da “dignidade” (de quem? de quê?) e da Europa (qual?) no preâmbulo da Constituição. A dita Comissão sabiamente e felizmente deu um parecer negativo sobre esse projeto desastroso. Devo admitir, no entanto, que em fim de mandato e tendo em vista a campanha de 2012, Nicolas Sarkozy soube de novo republicanizar o seu discurso face à esquerda Terra Nova que a emparecia em grande desfile multicultural, com o seu elenco variado de ” direitos “categoriais “arco-íris”sem limites nem fronteiras.
Em 2017, as primárias da direita optaram, primeiramente e de forma clara, contra o multicultural e muito “acomodatício ” Juppé, e a favor do modelo republicano-conservador de François Fillon, apoiando-se firmemente nas duas “pernas” da identidade francesa, encarnadas por Bruno Retailleau e François Barouin, a rosa e a violeta.
O constante movimentar de Macron
À esquerda, as primárias ajudaram a esclarecer as coisas uma vez que, Emmanuel Macron tendo-se escapado com um “nem – nem” obscuro e Mélenchon tendo saltado para uma síntese bem coxa de Marx e Bourdieu, os militantes socialistas preferiram claramente um Hamon multicultural a um Vals a priori mais republicano, pelo menos no discurso.
Com Mélenchon, Hamon e Fillon agora eliminados, resta-nos pois um cara a cara Macron-Marine Le Pen com o qual se tenta fazer-nos acreditar que a República estaria do lado do primeiro quando é exatamente o contrário.
Arrependimento colonial indo-se ao ponto de acusar a República de Jules Ferry[1] de “crime contra a humanidade”, generalização das discriminações positivas, negação incrível e repetida da cultura francesa, negação de qualquer continuidade, culto do efémero, da mobilidade, elogio da globalização e do sem-fronteiras, pulverização dos “direitos” distribuídos a todas as comunidades, e até mesmo um programa para o ensino superior resumido à “generalização do Erasmus”, isto é, à necessidade de andar de um lado para outro dos jovens estudantes e de um turismo estudantil inconsistentes. Tudo isto não é senão desfiliação do republicanismo e confusão das referências na bolha macronista.
Além do aliciamento clientelista e comunitário destilado ao acaso por uma comunicação desordenada, é a própria candidatura que rompe completamente com a tradição republicana. A vacuidade e a contradição das suas propostas são claramente assumidas e reivindicadas por um personagem desfasado da realidade e que se dispensa tanto mais depressa do programa quanto ignora o que sairá nas urnas das legislativas, com o que na verdade não se importa. A sua profissão de fé da primeira volta é esclarecedora. Há nela apenas uma conversa oca nas duas primeiras páginas e um catálogo desenvolto de agente comercial preguiçoso na última.
Lembramo-nos que há alguns anos, um boémio parisiense tinha feito uma aposta no restaurante Castel, com o seu bando de noctívagos, que conseguiria casar com a herdeira famosa e bonita de um principado rochoso. O sedutor conseguiu alcançar os seus propósitos, condenando mais tarde a princesa humilhada a solicitar a Roma o vício de consentimento saído deste jogo de menino maldoso. Emmanuel Macron parece-se com ele. Ele provavelmente apostou consigo mesmo que um Bel Ami poderia tornar-se chefe de Estado, às custas dos eleitores e zombando da República.
Marine Le Pen, uma republicana
Pode-se seguramente discutir sobre a personalidade de Marine Le Pen e a qualidade da gente que a rodeia, bem sobre a boa fundamentação e a viabilidade política e jurídica de vários elementos do seu programa. Pode-se mesmo constatar que se propõe acrescentar às nossas leis republicanas regras que já aí se encontram e que a sua ideia de garantir as creches de Natal na Constituição é tão ridícula quanto o serviço nacional obrigatório de um mês proposto pelo seu rival! Mas nem a organização de um referendo europeu, nem a limitação importante da imigração, nem as medidas que atribuem uma prioridade de contratação aos cidadãos (aplicadas na Grã-Bretanha bem antes do Brexit) são contrárias aos valores republicanos. Não há nada na tradição e nos princípios republicanos, que imponha o direito de solo, que obrigue a abrir as fronteiras sem limites, que proíba a cota de imigração ou imponha a igualdade entre nacionais e estrangeiros. O Conselho Constitucional lembra-o: “nenhum princípio nem nenhuma qualquer regra de valor constitucional assegura aos estrangeiros direitos de carácter geral e absoluto no acesso e permanência no território nacional“. O direito de asilo é estritamente reservado pela República “a todo o homem perseguido por causa da sua ação a favor da liberdade” e o artigo 5º. da Constituição afirma solenemente que o Presidente da República é o “garante da independência nacional“. Em 1986, o Conselho Constitucional concluiu que as privatizações das empresas nacionalizadas deveria fazer-se em conformidade com este princípio.
Que se discuta pois honestamente e ponto por ponto, da qualidade, da oportunidade, da viabilidade e da eficácia das propostas dos dois protagonistas na segunda volta é uma exigência democrática. Mas que se pare com essa farsa de fingir que se está a opor uma pretensa frente republicana contra uma candidata cujas preocupações estão seguramente menos distantes da tradição Republicana que a personalidade e o catálogo do seu rival. Michel Onfray teve toda a razão em realçar no jornal Le Figaro, em 24 de abril, a desonestidade intelectual e a hipocrisia daqueles que gritam contra um lobo que cuidadosamente fabricaram (Marine Le Pen) para fazer triunfar no final o ectoplasma pós-moderno (Macron) tão pouco republicano a que eles apelam de todo o coração.
Anne-Marie Le Pourhiet, Revista Causeur, «Front républicain»: l’imposture en marche! De Macron ou Le Pen, l’antirépublicain n’est pas celui qu’on croit. Texto disponível em :http://www.causeur.fr/emmanuel-macron-lepen-front-republicain-43973.html
[1] Jules Ferry, (1832-1893), republicano, maçon, positivista e anticlerical, foi o ministro da educação que tornou a escola francesa laica e republicana. Dissolveu os jesuítas, criou os primeiros liceus e colégios para meninas, tornou o ensino gratuito (lei de 1881) e obrigatório (1882). https://pt.wikipedia.org/wiki/Jules_Ferry.
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