"Sem tanta informação na internet, poucos se tornavam terroristas"
Harald Weilnböck, copresidente da Rede Europeia para a Desradicalização e fundador da ONG alemã Cultures Interactive, é psicoterapeuta e investigador académico. Trabalha cara a cara com jovens referenciados por ligações ao extremismo violento, como o jihadismo ou o neonazismo e já conseguiu convencer alguns a abandonar os ideais.
A organização não governamental (ONG) a que pertence (ver caixa) trabalha com jovens referenciados por radicalização jihadista. A vossa abordagem é com jovens que já estiveram na Síria a combater pelo Daesh e regressaram à Alemanha ou ainda numa fase preventiva?
Ninguém está ainda trabalhar com os chamados combatentes retornados. Esse assunto é um pouco polémico. Desde que se tornou crime ir para a Síria, não há assim tantos jovens que regressem à Alemanha e informem as autoridades da sua presença. Poderiam ter apoio, através do sistema público de saúde mental e apoios na reintegração. Se tiver sido provado que cometeram crimes, ficam sob vigilância das autoridades e podem ser presos. Na Dinamarca, onde este tipo de apoio é o melhor, cerca de metade dos retornados aceitam alguma ajuda, os outros vão andando sem apoio, pois ainda não é automaticamente considerado crime terem viajado para a Síria. Na Cultures-Interactive trabalhamos com jovens de risco, com ligações a ideais jihadistas ou neonazis, com o objetivo de prevenir e os desradicalizar precocemente.
Pode descrever a atitude destes jovens nas primeiras sessões de abordagem terapêutica?
São muito desconfiados e pouco articulados acerca deles mesmos. E agressivo. Esta atitude vai mudando lentamente. Depois tornam-se mais capazes de contar histórias com pormenores pessoais.
Que género de perfis são mais frequentes nestes jovens?
Têm as mais variadas origens sociais. Há da classe média, baixa e até da mais alta. Experiências de discriminação e questões de conflitos familiares, juntamente com uma ausência de expectativas profissionais, são os fatores mais comuns.
Que semelhanças e diferenças encontrou nas motivações e nas causas de adesão entre os jovens extremistas com ligações ao jihadismo, ao nazismo e aos gangues criminosos?
Na minha opinião não há grandes diferenças. Apenas têm uma aparência bastante diferente. Posso também afirmar, como referi na minha intervenção em Lisboa [Fórum Centro Norte-Sul da União Europeia sobre a prevenção da radicalização terrorista, que decorreu nos dias 5 e 6], detetámos também em grande parte dos casos que analisámos alguns problemas de insegurança na identidade do género masculino/feminino. Ser homofóbico é um denominador comum recorrente.
Se não houvesse o Daesh e o proclamado Estado Islâmico, o que estariam a fazer estes jovens europeus?
Possivelmente a fazer o que faziam antes. A maior parte dos atacantes que têm sido identificados têm uma carreira no mundo do crime, repleta de ofensas criminais (a maior parte violentas), outros têm problemas de abuso de drogas e de adaptação social. Provavelmente, poucos se teriam tornado terroristas se não estivesse disponível na internet tanta informação sobre o crime organizado e o terrorismo.
Há casos concretos de desradicalização? O que é considerado um caso de sucesso?
Há muitos casos de pessoas que começam a duvidar um pouco das suas crenças e isto é um sucesso, a saída dos grupos e dos ideais neonazis demora anos. Para nós, sucesso é quando começam a duvidar destas ideais e começam a pensar e a falar de uma forma mais profunda. No caso dos potenciais jihadistas, quando decidem não ir para a Síria é já um bom sinal.
Há capacidade na Alemanha e no resto da Europa, no que diz respeito ao tipo de acompanhamento que a sua ONG disponibiliza, para lidar com os milhares de jihadistas europeus caso regressem aos seus países de origem?
Há muitos especialistas preparados, com experiência de terreno, e podem ser formados mais. É só uma questão de haver recursos financeiros. Eu e os meus colegas, todos de ONG, estamos totalmente cheios de trabalho, mal pagos e com uma enorme falta de tempo. Os governos não são parceiros fáceis na Alemanha.
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