O PCP, que apresentou uma proposta alternativa, acabou por votar
favoravelmente a medida dos socialistas. Troca de galhardetes aqueceu
discussão com PSD e CDS, que falam em contradição.
A proposta que vingou foi aquela que o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Fernando Rocha Andrade, apresentou na véspera naquela mesma comissão parlamentar. Assim, os contribuintes com rendimentos colectáveis até aos 7420 euros anuais ficarão isentos do pagamento da sobretaxa. Para os contribuintes do segundo escalão (rendimento colectável dos 7000 aos 20 mil euros), a sobretaxa de IRS desce dos actuais 3,5% para 1%. Neste patamar, onde estão cerca de um milhão de agregados familiares, a descida é maior do que a prevista no programa eleitoral dos socialistas.
Para o terceiro escalão, os rendimentos colectáveis entre 20 mil a 40 mil euros por ano, a sobretaxa é reduzida a metade, descendo para 1,75%. Nesta situação estão cerca de 364 mil agregados familiares.
Já para quem tem rendimentos entre 40 mil e 80 mil euros, a redução será menor do que a prevista inicialmente pelo PS. A sobretaxa desce para 3%. Há cerca de 80 mil famílias neste quarto escalão de rendimento. No patamar mais alto, para quem tem rendimento colectável acima dos 80 mil euros por ano, a sobretaxa vai manter-se nos 3,5% no próximo ano.
O facto de o PCP ter votado a favor da proposta do PS, depois de se ver vencido na sua proposta alternativa, levou os deputados do PSD e do CDS a acusarem os comunistas de se contradizerem. Logo depois da votação das duas propostas (PS e PCP), gerou-se uma intensa troca de galhardetes entre as várias bancadas, com os deputados a falarem ao mesmo tempo e sobrepondo-se uns aos outros.
António Leitão Amaro, do PSD, abriu as hostilidades ao afirmar que este é um dia histórico por ver o PCP a “votar algo e o seu contrário”. A frase abriu uma discussão animada. “Tenha calma, senhor deputado, tenha calma”, respondia o deputado do PCP Paulo Sá, enquanto Leitão Amaro continuava a falar. “Ainda lhe pode dar uma coisa qualquer...”, continuava Paulo Sá. “Um fanico...”, atirou, num aparte, o deputado do PS João Galamba.
O PCP propôs que, para além dos contribuintes do primeiro escalão de IRS, também as pessoas do segundo escalão deixassem de pagar já a sobretaxa; e ainda para que quem está no terceiro patamar pagasse 1,75%, mantendo a taxa nos 3,5% para rendimentos acima dos 40 mil euros anuais.
Na resposta às críticas dos sociais-democratas, Paulo Sá lembrou aos partidos que sustentavam o anterior Governo qual era a sua proposta para a sobretaxa. “Queriam manter a sobretaxa até 2019”, afirmou, salientando que a proposta do PS que recebeu o apoio à esquerda é progressiva. Apontando a Leitão Amaro, desafiou: “Não entendeu que o PSD e o CDS foram derrotados”. “Tenha calma que ainda lhe pode dar alguma coisa”, repetiu.
Do CDS veio mais uma crítica à bancada comunista, a quem a deputada Cecília Meireles lembrou que o PCP “votou hoje a favor da eliminação gradual” e não da eliminação imediata desta medida em 2016. “Na ânsia de encontrarem” um acordo para manter o poder, acusou a deputada, os partidos à esquerda “nem acautelaram os vossos princípios, nem acautelaram” a segurança orçamental.
A defesa da proposta dos socialistas foi feita por João Galamba, que, quando ouviu do PSD novas críticas à estratégia desenhada para dinamizar a economia, reafirmou: “Vamos mesmo recuperar rendimentos, vamos mesmo recuperar a economia”.
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