EDITORIAL – Para uma política do livro
O
Ministro da Cultura recentemente nomeado, o Dr. João Soares,
sabendo-se tudo o que de negativo sobre ele se diz – as suas relações
de amizade com Jonas Savimbi, é apenas um dos muitos lançamentos
feitos na coluna do passivo da sua contabilidade – deve merecer o
benefício da dúvida, pois, por exemplo, o seu trabalho como Presidente
da Câmara Municipal de Lisboa teve muitos aspectos positivos – lembramos
apenas a criação de equipamentos culturais tais como a Casa Fernando
Pessoa, o Teatro Mário Viegas, a Videoteca, a Fonoteca, a Bedeteca, a
Biblioteca-Museu República e Resistência…
Ou seja, para os inimigos políticos terá todos os defeitos e será
para sempre o «amigo do canibal», enquanto para os amigos os quase
quinze mil versos da Odisseia serão insuficientes para o
louvar. Nós, não nos colocamos na posição de quem acusa ou elogia.
Estamos atentos, pois privilegiamos a cultura entre todas as matérias
que abordamos e João Soares, que com todos os defeitos e virtudes que se
lhe queira atribuir, é um homem que preza a cultura – terá aplausos e
vaias da nossa parte de acordo com o que, numa área tão carenciada como
a do ministério que lhe coube.
Aplausos e pateadas quase inaudíveis, pois mais não somos do que um
modesto blogue – gente diversa que tem em comum o amor pela democracia,
embora o termo não tenha para todos os 80 colaboradores o mesmo
significado. Para já, achamos que o Dr. António Costa, filho de dois
ícones culturais do antifascismo – a jornalista Maria Antónia Palla e o
excelente escritor Orlando da Costa, fez uma boa escolha – um ministro
escritor e editor. Porque no entanto, nem todos sabem que João Soares
foi. em 1975, sócio, com Victor da Cunha Rego. da editora – a p&e -perspectivas & realidades – onde
publicaram autores como o argonauta José Brandão. E, ainda nesta área,
contrastando com a inércia cultural herdada de Krus Abecasis, criou a
rede de bibliotecas municipais.
Não se trata de um problema da capital, mas de uma lacuna nacional –
a falta de uma política do livro. Não é preciso inventar, existe em
muitos países – uma comissão qualificada avalia obras que enriquecendo a
cultura nacional, não permitem ao editor o retorno do investimento,
sendo preteridas por obras ditas «comerciais», mas que nada acrescentam à
glória das letras nacionais. Pequenas edições (500 exemplares?), que
seriam absorvidas pela compra institucional – destinada a bibliotecas
municipais – impediriam que muitos trabalhos dignos de ser publicados,
fiquem inéditos.
Não queremos lesar as companhias de teatro, já de si tão
depauperadas (o nosso Hélder Costa que o diga), nem os cineastas – mas
um filme (sem sucesso comercial, como quase sempre acontece), daria para
mais de mil edições subsidiadas. Entre os 80 argonautas há uma ampla
maioria de escritores – ficcionistas, poetas, historiadores… Devíamos
nós que amamos a escrita, devíamos proceder a um debate sobre «uma
política nacional para o livro».
http://aviagemdosargonautas.net
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