imagem da net adicionada por António Garrochinho
http://atentainquietude.blogspot.pt
O
DN de hoje trata com chamada a1ª página uma matéria que já por aqui
também tenho referido, o número crescente de crianças diagnosticadas e
medicadas para eventuais problemas de comportamento sem que a situação
esteja suficientemente fundamentada. São
referidos casos de crianças medicadas com anti-psicóticos fármacos mais
habitualmente prescritos para população adulta.
De facto, segundo dados do
Infarmed o recurso ao metilfenidato com os nomes correntes de Ritalina,
Concerta ou Rubifen disparou em Portugal nos últimos anos, de 23 000 embalagens
vendidas em 2004 passou-se para cerca de 276 029 embalagens vendidas em 2014,
um crescimento assombroso e preocupante.
Face a este cenário e em
diferentes intervenções públicas, especialistas como Mário Cordeiro, Gomes
Pedro ou na peça de hoje do DN, Ana Vasconcelos, têm revelado sempre uma atitude
cautelosa e prudente face esta hipermedicação ou sobrediagnóstico e alertado para
os riscos destas práticas. Este tipo de discurso, cauteloso e prudente, que
subscrevo, contrasta com a ligeireza, que não estranho, de Miguel Palha que
referia há algum tempo no Público as “centenas” de crianças que na sua clínica
solicitam “diariamente” o fármaco.
Retomo algumas notas de textos
anteriores sobre estas questões, a forma como olhamos e intervimos face aos
comportamentos que os miúdos mostram. De há uns tempos para cá uma
boa parte dos miúdos e adolescentes ganhou uma espécie de prefixo na sua
condição, o "dis", passam a "dismiúdos".
Se bem repararem a diversidade é
enorme, ao correr da lembrança temos os meninos que são disléxicos em gama
variada, disgráficos, discalcúlicos, disortográficos ou até distraídos.
Temos também as crianças e
adolescentes que têm (dis)túrbios ou perturbações. Estes também são das mais
diferenciadas naturezas, distúrbios do comportamento, distúrbio do
desenvolvimento, distúrbios da atenção e concentração, distúrbios da memória,
distúrbios da cognição, distúrbios emocionais, distúrbios da personalidade,
distúrbios da actividade, distúrbios da comunicação, distúrbios da audição e da
visão, distúrbios da aprendizagem ou distúrbios alimentares.
Como é evidente existem ainda os
que só fazem (dis)parates e aqueles cujo ambiente de vida é completamente
(dis)funcional ou se confrontam com as (dis)funcionalidades dem muitos
contextos escolares, número de alunos por turma excessivo, currículos
desajustados, falta de apoios, etc.
Pois é, há sempre um
"dis" à espera de qualquer miúdo e senão, inventa-se, "ele tem
que ter qualquer coisa".
De forma simplista costumo dizer
que algumas destas crianças não têm perturbações do desenvolvimento ou
dificuldades de aprendizagem, experimentam perturbações no envolvimento e
sentem dificuldades na “ensinagem”.
Agora um pouco mais a sério,
sabemos todos que existem um conjunto de problemas que podem afectar crianças e
adolescentes, devem ser abordados, se necessário com medicação, evidentemente,
mas, felizmente, não são tantos as situações como por vezes parece. Inquieta-me
muito a ligeireza com que frequentemente são produzidos
"diagnósticos" e rótulos que se colam aos miúdos, dos quais eles
dificilmente se libertarão e que pela banalização da sua utilização se produza
uma perigosa indiferença sobre o que se observa nos miúdos.
Inquieta-me ainda a ligeireza com
que muitos miúdos aparecem medicados, chamo-lhes "ritalinizados", sem
que os respectivos diagnósticos conhecidos pareçam suportar seguramente o
recurso à medicação. Como mais uma vez se refere os riscos da sobreutilização
ou uso sem justificação do metilfenidato e de outros fármacos tem riscos, uns
já conhecidos, outros em investigação.
Esta matéria, avaliar e explicar
o que se passa com os miúdos e adolescentes, exige um elevadíssimo padrão ético
e deontológico além da óbvia competência técnica e científica.
Não se pode aligeirar, é
"dis"masiado grave.http://atentainquietude.blogspot.pt

Sem comentários:
Enviar um comentário