por Michael Hudson
"Mas na terça-feira o FMI aderiu à Nova Guerra Fria. Ele tem emprestado dinheiro à Ucrânia apesar das regras do Fundo proibirem empréstimos a países sem possibilidade visível de pagar (a regra "No More Argentinas" a partir de 2001). Sob a chefia de Christine Lagarde o FMI fez o último empréstimo à Ucrânia na Primavera e ela manifestou a esperança de que haveria paz. Mas o presidente Porochenko anunciou de imediato que utilizaria as receitas para intensificar a guerra civil do país com a população do Leste que fala russo, o Donbass.Aquela é a região que faz a maior parte das exportações, principalmente para a Rússia. Este mercado agora e no futuro previsível está perdido. Pode ser por muito tempo, porque o país é dirigido pela junta apoiada pelos EUA colocada no governo após o golpe de extrema direita do Inverno de 2014. A Ucrânia recusou-se a pagar não só os possuidores de títulos do sectores privado como também o governo russo. "
No dia 8 de Dezembro o porta-voz chefe do FMI, Gerry Rice, enviou uma nota a dizer:
"O Conselho de Administração do FMI reuniu-se hoje e concordou em mudar a
actual política de não tolerância de pagamentos atrasados (arrears) a
credores oficiais. Apresentaremos pormenores sobre o âmbito e lógica
desta mudança política nos próximos dias".
Desde 1947 quando, quando realmente começou a operar, o Banco Mundial
tem actuado como uma ramo do Departamento da Defesa dos EUA, desde o seu
primeiro presidente John J. McCloy até Robert McNamara, Robert Zoellick
e o neocon Paul Wolfowitz. Desde o início ele promoveu exportações dos
EUA – especialmente exportações agrícolas – ao orientar países do
Terceiro Mundo a produzirem plantios extensivos ao invés de alimentarem
suas próprias populações (eles devem importar cereais dos EUA). Mas ele
sentiu-se obrigado a envolver sua promoção de exportações
estado-unidenses e seu apoio à área dólar numa retórica ostensivamente
internacionalista, como se o que é bom para os Estados Unidos fosse bom
para o mundo.
O FMI foi agora arrastado para a órbita da Guerra Fria estado-unidense.
Na quinta-feira ele tomou a decisão radical de desmantelar a condição
que havia integrado o sistema financeiro global durante o último meio
século. No passado, ele fora capaz de assumir o comando na organização
de pacotes salvamentos (bailouts) a governos ao conseguir que outros
países credores – encabeçados pelos Estados Unidos, Alemanha e Japão –
participassem. A alavancagem de credor que o FMI utilizava é que se um
país está com atrasados financeiros a qualquer governo ele não pode
qualificar-se para um empréstimo do FMI – e portanto para pacotes que
envolvam outros governos.
Este tem sido o sistema pelo qual o dolarizado sistema financeiro global
funcionou durante meio século. Os beneficiários têm sido credores em US
dólares.
Mas na terça-feira o FMI aderiu à Nova Guerra Fria. Ele tem emprestado
dinheiro à Ucrânia apesar das regras do Fundo proibirem empréstimos a
países sem possibilidade visível de pagar (a regra "No More Argentinas" a
partir de 2001). Sob a chefia de Christine Lagarde o FMI fez o último
empréstimo à Ucrânia na Primavera e ela manifestou a esperança de que
haveria paz. Mas o presidente Porochenko anunciou de imediato que
utilizaria as receitas para intensificar a guerra civil do país com a
população do Leste que fala russo, o Donbass.
Aquela é a região que faz a maior parte das exportações, principalmente
para a Rússia. Este mercado agora e no futuro previsível está perdido.
Pode ser por muito tempo, porque o país é dirigido pela junta apoiada
pelos EUA colocada no governo após o golpe de extrema direita do Inverno
de 2014. A Ucrânia recusou-se a pagar não só os possuidores de títulos
do sectores privado como também o governo russo.
Isto deveria ter impedido a Ucrânia de receber nova ajuda do FMI. A
recusa a pagar pela beligerância militar ucraniana na sua Nova Guerra
Fria contra a Rússia teria sido um grande passo para forçar a paz e
forçar também uma limpeza à corrupção endémica do país.
Ao invés disso, o FMI está a apoiar a política ucraniana, a sua
cleptocracia e o seu Right Sector que efectuou os ataques que
recentemente cortariam o fornecimento de electricidade à Crimeia. A
única condição em que o FMI insiste é a austeridade contínua. A divisa
da Ucrânia, o hryvnia, caiu em um terço nestes anos, pensões têm sido
cortadas (em grande medida devido à inflação), enquanto a corrupção
continua constante.
Apesar disto o FMI anunciou a sua intenção de conceder novos empréstimos
para financiar a dependência da Ucrânia e subornos aos oligarcas que
controlam o seu parlamento e departamentos de justiça a fim de impedir
qualquer limpeza real da corrupção.
Durante mais de seis meses houve uma discussão semi-pública com
conselheiros do Departamento do Tesouro dos EUA e Guerreiros Frios
acerca de como imobilizar a Rússia quanto aos US$3 mil milhões devidos
pela Ucrânia ao Fundo de Riqueza Soberana da Rússia. Houve alguma
conversa sobre declarar isto como "dívida odiosa", mas foi decidido que
esta trama poderia reverter contra ditaduras apoiadas pelos EUA.
No fim, o FMI simplesmente emprestou o dinheiro à Ucrânia.
Ao assim fazer, ele anunciou a sua nova política. "Nós só exigimos
dívidas em US dólares a aliados dos EUA". Isto significa que o que
estava a ferver em fogo branco como uma Guerra Fria contra a Rússia
transformou-se agora numa completa divisão do mundo dentro do Bloco do
Dólar (com o seus satélite Euro e outras divisas pró estado-unidenses) e
os BRICS ou outros países não na órbita financeira e militar dos EUA.
O que é que a Rússia deveria fazer? Aliás, o que deveriam a China e
outros países BRICS fazer? O FMI e os neocons estado-unidenses enviaram
uma mensagem ao mundo: você não tem de honrar suas dívidas para com
países fora da área do dólar e dos seus satélites.
Por que então deveriam estes países não dolarizados permanecerem no FMI –
ou no Banco Mundial, por falar nisso? O movimento do FMI efectivamente
racha o sistema global pela metade, entre os BRICS e o sistema
financeiro neoliberalizado EUA-Europa.
Deveria a Rússia retirar-se do FMI? Deveriam os demais países?
A resposta reflexa seria o novo Banco de Desenvolvimento Asiático
anunciar que países que aderiram à área rublo-yuan não teriam de pagar
dívidas denominadas em US dólar ou em Euro. É a isto implicitamente que a
ruptura do FMI está a levar.
O original encontra-se em thesaker.is/the-imf-forgives-ukraines-loan-to-russia/
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
Mafarrico Vermelho
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