Selecção, tradução, notas e montagem por Júlio Marques Mota
O Capitalismo em actividade
Paul Craig Roberts, Capitalism At Work
PaulCraigRoberts.org, 28 de Novembro de 2015
Zero Hedge relata-nos uma história intitulada ” Keep Talking Greece”” que apareceu pela primeira vez em The Times:
Segundo esta história, os padrões de vida do povo grego estão em
queda livre o que foi forçado pela chanceler alemã Merkel e pelos bancos
europeus, o que, por seu lado, terá forçado um enorme número de jovens
mulheres gregas a caírem na prostituição..
O grande aumento de mulheres a oferecer serviços sexuais fez cair o
preço deste serviço para 4 euros por hora. Isso equivale a USD $ 4,24, o
valor que a austeridade imposta pelos banksters[1]
levou a ser aplicado por hora de utilização do corpo de uma mulher, ou
seja o suficiente apenas para uma tarte de queijo ou uma sanduíche. O
preço de meia hora é de USD $ 2.12. Estas mulheres nem sequer ganham o
salário mínimo.
Numa outra fonte, o Mail online, pode-se ler:
As adolescentes prostitutas que vendem sexo para pelo preço de uma
sanduíche como resultado de uma recessão paralisante da Grécia que
empurra os preços para o seu ponto mais baixo
Algumas mulheres na Grécia estão a vender-se sexualmente pelo preço de uma sanduíche.
O preço da sessão de sexo caiu de € 50 para apenas € 2 nalguns casos.
A prostituição é legal mas somente dez dos 525 bordéis gregos têm uma licença.
A crise que atravessa e paralisa a Grécia significa que há aí cada
vez mais mulheres a vender o sexo com os preços em queda livre e a
ficarem ao nível do custo de uma sanduíche.
Um novo relatório revela que há mais mulheres gregas do que mulheres
da Europa Oriental a trabalharem como prostitutas na Grécia depois dos
anos difíceis de austeridade.
‘Algumas mulheres fazem-no para poderem comprar uma tarte de queijo,
ou um sanduíche que precisam de comer porque estão com fome,’ diz o
autor do relatório, professor de Sociologia, Gregory Lazos, da
Universidade de Panteion em Atenas.
Veja-se entre outros:
http://www.dailymail.co.uk/news/article-3337243/Teenage-prostitutes-selling-sex-price-sandwich-Greece-s-crippling-recession-pushes-prices-time-low.html#ixzz3t70zJVXa
Quando se lê uma história como esta, espera-se que seja a fazer uma
paródia ou uma caricatura. Embora o Times de Londres tenha tido um
longo caminho de queda ainda não é o tipo de jornal que pode ser
comprado à saída nas caixas dos supermercados .
A história ganha credibilidade quando nos websites nos EUA são as
estudantes universitárias que fazem publicidade sobre a sua
disponibilidade em serem amantes de homens que tenham os meios
financeiros para as ajudar nas suas despesas. A partir de várias
reportagens, ser amante parece ser a principal profissão das estudantes
do sexo feminino nas universidades de alto custo, como a NYU.
As meninas universitárias de Nova Iorque têm conseguido bem melhor
que as mulheres gregas. A relação de amantes é monogâmica e pode ser de
longa duração e amorosa. Os puritanos levantam o problema na disparidade
de idades, mas a disparidade das idades era uma característica dos
casamentos da classe alta. As prostitutas têm um largo leque de
parceiros sexuais, o que possivelmente acarreta a transmissão de doenças
e possivelmente não recebem nada em troca, excepto dinheiro. Na Grécia,
se o relatório é correcto, o pagamento é tão baixo que aí estas
mulheres não ganham o suficiente para viver, não ganham para comer para
lá do almoço.
Isto é o capitalismo a funcionar. Nos EUA, a dureza e violência da
situação resultam do facto de o custo das matrículas ter disparado, com
75% do orçamento universitário gasto na administração, ao invés de o ser
no corpo docente ou na ajuda aos estudantes, e resulta também da falta
de empregos disponíveis para os graduados e que lhes paguem o suficiente
para servir os empréstimos estudantis. Por estes dias, o empregado do
restaurante que o serve pode ser um professor universitário adjunto ou a
tempo parcial, com a esperança de conseguir um emprego em tempo
integral como actor. Como amantes, as meninas de NYU estão em melhor
situação, ou sejam, ganham mais.
Na Grécia, a dureza da situação é imposta pelo exterior, pela União
Europeia, a que Grécia tolamente aderiu como membro pleno, entregando a
sua soberania às Instituições Europeias [a Troika + MEE] recebendo em
troca a imposição das politicas de austeridade. Os banksters e os seus
agentes nos governos americano e alemão afirmam que o povo grego
beneficiou de empréstimos e, que, portanto, são eles os responsáveis
pelo pagamento destes mesmos empréstimos. Mas os empréstimos não foram
feitos para o povo grego. Foram empréstimos feitos a governos gregos
corruptos que estavam a serem pagos com luvas atribuídas pelos credores
para que eles aceitassem os empréstimos, e os rendimentos eram muitas
vezes usados para compras apenas no país de onde vinha cada empréstimo.
Por exemplo, aos governos gregos foram pagas luvas para que pedissem
dinheiro emprestado aos bancos alemães ou a outros bancos estrangeiros —
a fim de comprarem submarinos alemães. É através deste tipo de
corrupção que a dívida grega cresceu.
A história contada pelos meios de comunicação financeiros e pelos
economistas neoliberais que trabalham para os banksters é que o povo
grego irresponsavelmente contraiu empréstimos e passou-o a seu belo
prazer e para proveito próprio e tendo usufruído dos frutos dos
empréstimos não quer agora pagá-los. Esta história é uma mentira. Mas a
mentira visa garantir que as pessoas sejam pilhadas a fim de reparar os
próprios erros dos bancos ao terem praticado uma política de crédito
excessivo. Os bancos obtiveram os seus honorários, juros e encargos
bancários, assim como também outros ganhos pagos pelos produtores dos
submarinos. (Estou a utilizar produtores de submarinos como um genérico
para as fileiras de bens e serviços em que os empréstimos foram gastos).
Na Grécia os empréstimos estão a ser pagos pelo dinheiro “poupado”
através do corte das pensões gregas, da educação, dos serviços sociais e
do emprego público, assim como com o dinheiro obtido com a venda de
bens públicos tais como portos, o abastecimento de água ao nível das
câmaras, l e as ilhas protegidas. As reduções nas pensões, na educação,
nos serviços sociais e o desemprego drenam o dinheiro da economia, e a
venda de activos públicos drena o dinheiro do orçamento de governo.
Michael Hudson relata-nos esta história brilhantemente no seu novo livro
Killing the Host.
O resultado são as dificuldades aumentadas à escala da Grécia e o
resultado do aumento destas dificuldades é o facto de que as jovens
mulheres gregas têm que se vender [ e ao desbarato] para sobreviver.
Como já diziam justamente Marx, Engels, e Lenine.
De Zero Hedge citamos ainda :
Assim, segundo The Times e Gregory Lazos as mulheres gregas
viveram felizes e eram elas que nestas matérias eram então vistas como
pequenas santas enquanto agora vendem e fazem sexo até nas ruas para
terem finalmente algo para comer. Não dá sequer para uma pequena
espetada grega. Esta custa entre 2,00 e 2,20 € e tem 23% de IVA por
conter sal e especiarias. Uma pequena tarte de queijo pode ser comprado
por € 1 – € 1,20. Portanto, há 1 € não gasto em comida para cobrir as
necessidades básicas e despesas extras…
Gregory Lazos considera ainda que antes da crise económica “não
havia nenhuma tendência para a prostituição entre as mulheres gregas.”
Ele ressaltou que “o fenómeno parece crescer a um ritmo constante e
consistente.” Antes da crise a maioria das prostitutas eram mulheres da
Europa de Leste.
Agora alguns gregos espantam-se agora porque é que muitos filmes
gregos dos anos 50 os 60 e do inicio dos anos 70 caracterizavam as
mulheres gregas como prostitutas sendo a mais famosa delas Ilia (Melina
Merkouri) no filme Never on Sunday. E alguns gregos da habitual classe
média grega reconhecem todas as jovens filhas de gente fina que
frequentavam os bares e os restaurantes nobres de determinados subúrbios
de primeira classe de Atenas de antes da crise… Ops! São agora
acompanhantes de luxo. – E porque são agora tantas, os bordéis
esvaziaram-se e não renovaram suas licenças – apenas ironia !
PS: Pelo menos no sector do sexo a Grécia parece ter-se desenvolvido
de tal forma que se tornou um país super competitivo e questiono-me
como é que Lagarde do FMI comentaria este desenvolvimento e se ela
aplaudiria com ambas as suas mãos o crescimento que se verifica neste
sector.
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Pode-se pensar que as pessoas se sentiriam em todo o lado do mundo
como estando a ser insultadas por esta realidade. Mas à maioria daqueles
que comentaram o texto de Zero Hedge nada mais fazem do que apresentar
gracejos de grande brutalidade como por exemplo “pensem sobre isto, os
custos de Viagra são 4x o custo da bichinha, ” ou ainda “é mais rápido e
melhor ir com a menina e depois levá-la a jantar.” Aqueles que
representam os tão apregoados “valores ocidentais” não vêem nada que os
possa fazer sentir insultados.
http://www.zerohedge.com/news/2015-11-28/meanwhile-greece-price-prostitute-drops-€4-hour
A percentagem de russos pró-Ocidente que olham para a liderança ocidental aproxima-se rapidamente de zero.
O que é que é mais importante? A dignidade das mulheres ou mais um milhar de milhões para os banksters?
A civilização ocidental deu a resposta: mais um outro milhar de milhões para os banksters.
O texto de base desta peça de blog é o artigo de Paul Craig Roberts, Capitalism At Work. Texto disponivel em:
a que se juntaram peças de diferentes jornais e blogs que trataram este tema.
http://aviagemdosargonautas.net
1 comentário:
E qual é o papel que os Vigários de Cristo da Igreja cristã ortodoxa desempenha no meio desta calamidade material e moral? Usando as adversativas que aprendi na Instrução Primária,direi:-Mas,porém, todavia,contudo....Com populismo e demagogia/muita mentira,verdade parece/mas em liberdade e «democracia»/cada Povo tem o Governo que merece.(Nota)Democracia e Demagogia,são palavras gregas.
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