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A aviação resiste como um dos sectores
com as profissões mais bem pagas do país. Em três décadas houve grandes
mudanças, mas uma constante: os serviços dominam.
Estas tendências são retiradas dos Quadros de Pessoal da Segurança Social, trabalhados para o Diário Económico pelos economistas Pedro Portugal – um dos principais especialistas em economia do trabalho e investigador do Banco de Portugal – e Pedro Raposo. A análise abrangeu dados de mais de três milhões de trabalhadores do sector privado e empresarial do Estado – reportados anualmente pelos empregadores à Segurança Social –, acima de três quartos do total da população empregada. De fora estão esferas importantes do ponto de vista salarial, como a Administração Pública ou os profissionais por conta própria, mas esta a evolução do top 20 em 1986, 1993, 2003 e 2013 oferece ainda assim um retrato das transformações e resistências no mercado de trabalho e na economia portuguesa.
Pilotos de avião, técnicos de segurança aérea e oficiais de pilotagem de navios - estas eram as três profissões mais bem remuneradas em 1986. Ainda no top 10 estavam assistentes e comissários, bem como os mecânicos de motores de aviões. Entre os vinte profissionais mais bem remunerados estavam também os controladores de tráfego aéreo.
Em 1986 a aviação era um segmento profissional bem remunerado, tal como, aliás, muitas outras profissões relacionadas com os transportes e comunicações. Os oficiais maquinistas de navios apareciam em quinto lugar e os maquinistas de locomotivas surgiam em 17º lugar. Destacavam-se também as chefias das empresas: os directores gerais estavam na sétima posição, os directores de produção das indústrias transformadora e extractiva na nona e os directores de serviços administrativos e financeiros no lugar número 13.
Vinte e sete anos depois, há muitas alterações interessantes, mas também muitas constantes. “As profissões relacionadas com os serviços sempre foram das mais bem pagas”, nota Luciano Amaral, professor da Nova School of Business and Economics, referindo-se à comparação com a indústria. Em 1986 pelo menos treze das vinte mais bem pagas eram nos serviços, número que sobe ligeiramente em 2013, para 14. “O sector financeiro também está representado”, frisa, acrescentando que se nota um “efeito de nicho, com a aviação e os desportistas no topo”. O aparecimento dos desportistas e treinadores dá-se em 1993 e a ascensão na lista não para até 2013.
Em 2013 – com dados que já reflectem a maior parte do ajustamento salarial da era da troika – o topo está ocupado pelos controladores de tráfego aéreo, desportistas e treinadores e em terceiro lugar pelos médicos (reflectindo, em parte, o maior peso da saúde privada). Também lá continuam, em quinto lugar, os técnicos de segurança aérea (que terão absorvido, por alterações na classificação das profissões pelo Instituto Nacional de Estatística, os pilotos de avião), bem como os oficiais de pilotagem de navios, em sétimo. A relevância da actividade sindical no sector da aviação é um dos factores que explicam a resistência destas profissões no topo da tabela. O peso dos sindicatos nos transportes em geral não impediu, contudo, a queda relativa das profissões ligadas à ferrovia.
No topo, na comparação entre 86 e 2013, mantêm-se os directores de empresas (na 4ª posição) e os directores-gerais (6º lugar). Tal como em 1986, tanto os agentes de seguros como os corretores de bolsa, cambistas e outros serviços financeiros continuam a aparecer no top 20.
Maior profissionalização
Ricardo Costa, especialista em Recursos Humanos e professor na Universidade Católica, sublinha o reflexo da profissionalização das empresas na transição entre 86 e 2013. Nos dados de 2003 destacava-se uma variedade maior de cargos de chefia empresarial. “Marca uma mudança de paradigma: na década de oitenta tínhamos empresas com um nível de sofisticação mais baixo”, explica, lembrando que quase todas tinham uma gestão familiar e um director que centralizava muitas funções. Depois da mudança do milénio “emergiu a gestão profissional”, com “a disseminação dos directores em muitas áreas de especialização”.
Esta tendência ajuda a perceber que, na lista de 2003, estejam directores de serviços informáticos, de transportes, comunicações e entrepostos, de recursos humanos, de publicidade e relações públicas, de vendas e comercialização, de empresas de mediação e prestação de serviços, de compras e distribuição, de serviços de investigação e desenvolvimento, de comércio grossista e retalhista, além dos directores que já figuravam em 1986.
Em 2013 muitos destes directores ainda estão entre os mais bem pagos, mas a lista ganha outra característica. “Aparecem as profissões da ciência”, nota Ricardo Costa. Estão lá os professores universitários, os físicos, os astrónomos, os geólogos. Entretanto, a economia portuguesa passou de menos de 18.700 diplomados por ano em 1991 (ano mais recuado para o qual há dados) para quase 80.900 em 2013. No ano passado diplomaram-se cerca de 75.900 pessoas.
É assim que desaparecem os economistas do topo da tabela: “generalizou-se esta formação superior”, diz Luciano Amaral. “A formação de base já não define a carreira profissional”, acrescenta Ricardo Costa. Se, no passado, muitas empresas tinham um lugar para um ‘economista’, hoje muitos dos diplomados nesta área desempenham uma variedade grande de profissões, frequentemente de chefia.
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