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domingo, 29 de abril de 2012
Marlene Dietrich – Para onde foram todas as flores?
O canal de televisão franco alemão ARTE estava, numa madrugada destas, a transmitir um fantástico documentário sobre a história da sua música mais “ligeira” e popularucha... à mistura com coisas bem mais sérias.
Fiquei a ver... e fui recompensado. Depois de quase uma hora a ouvir excertos de vários originais, em alemão, dos “êxitos” de um Marco Paulo, ou dos Broa de Mel, que sempre se serviram deste manancial de cantigas comerciais de sucesso, eis que irrompe no ecrã a figura única de Marlene Dietrich.
A propósito da sua teimosia em cantar a maldita (na Alemanha nazi) “Lily Marlene”, da sua falta de “compreensão” para com o regime de Hitler, do seu longo exílio pessoal e artístico... passaram uns curtos instantes raros do primeiro espectáculo do seu regresso à Alemanha, mais de uma década passada sobre o fim da guerra, cantando em Berlim, trémula de emoção... uma canção do Pete Seeger.
A canção, “Where have all the flowers gone”, é um hino arrasador contra a guerra e a sangrenta ceifa de jovens vidas que ela sempre representa. Marlene costumava apresentá-la de uma forma muito simples, como se pode ver neste vídeo de uma performance no Royal Variety em 1963: “Vou cantar uma canção de Pete Seeger. É uma canção que amo muito!”
Também eu.
Bom domingo!
“Where have all the flowers gone” – Marlene Dietrich
(Pete Seeger)
PUBLICADA POR SAMUEL
BLOG CANTIGUEIRO
O DN faz radiografia ao BPN
O Estado já gastou 3,55 mil milhões de euros com o BPN, mas a fatura pode chegar aos 8,3 mil milhões. A teia de negócios que 'cheira' a fraude, os protagonistas das diferentes fases do BPN os 356 processos em curso por todo o País, a supervisão do Banco de Portugal e a venda ao BIC.
Entre o que o Estado pode vir a suportar há uma "bomba-relógio" que se destaca e assusta os mais atentos: os 3,9 mil milhões de euros que a Caixa Geral de Depósitos (CGD) tem de exposição nas empresas (veículos) criadas para absorver os ativos tóxicos do BPN para permitir o negócio da reprivatização. Tavares Moreira, governador do Banco de Portugal entre 1986 e 1992, explica que "só quando estes veículos forem liquidados, o que poderá só acontecer daqui a oito anos, é que se saberá a verdadeira perda do BPN.
Nota: Com 8.3mil milhões dava para comprar 48 aviões Airbus A380 (o maior avião comercial do mundo), 15 plantéis de futebol iguais ao do Real Madrid, 6 TGV de Lisboa a Gaia, 4 pontes para travessia do Tejo, 3 aeroportos como o de Alcochete. Para transportar os 8.3 MIL MILHÕES DE EUROS seriam necessárias 4.800 carrinhas de transporte de valores!
Blog D"SUL
Lutou por uma democracia melhor e defendeu sempre a união, que como chegou a dizer “é sempre melhor do que a divisão”, e na sua despedida teve a justa homenagem. Longe das lutas partidárias e dos palcos políticos, todos, da direita mais conservadora à esquerda revolucionária, passando ainda pela cultura e pelo jornalismo, se quiseram despedir de Miguel Portas, cujo corpo esteve durante a tarde deste sábado em câmara ardente no Palácio das Galveias, em Lisboa. E à porta ficaram ainda centenas e centenas de pessoas.
“É isto que o Miguel nos deixa”, disse ao PÚBLICO Daniel Oliveira, ex-dirigente do Bloco de Esquerda (BE), apontando para as centenas de pessoas que formam uma fila de cerca de 500 metros e que dá a volta ao quarteirão. “Ele juntava as pessoas através da sua capacidade de fazer pontes com as diferentes pessoas e isso nota-se muito aqui, neste carinho.”
Todos querem entrar, alguns apenas por curiosidade, outros para se despedirem do colega e amigo Miguel Portas, que morreu na terça-feira, aos 53 anos, de cancro no pulmão, no Hospital ZNA Middelheim, em Antuérpia, deixando ainda uma palavra de força e incentivo à família, nomeadamente aos pais Helena Sacadura Cabral e Nuno Portas e aos irmãos Paulo Portas e Catarina Portas, que estão ao lado do caixão fechado, assim como o actual dirigente do BE, Francisco Louçã.
São muitas as flores, que estão espalhadas no salão do Palácio, na sua maioria cravos, lembrando assim o homem que sempre lutou pelos seus ideais. À porta são deixadas mensagens de despedida num livro, que será depois entregue à família. E para os que querem guardar uma última lembrança de Miguel há um postal com uma fotografia dele ainda jovem e com um cigarro na boca. Ao lado, assinado por Miguel Portas, está escrito: "As atitudes têm de servir para algo mais do que conquistar votos ou justificar passados. Têm de ajudar a inventar um futuro em que as pessoas possam crescer não em função do que têm mas do que podem ser. E isso depende de vocês. Felizmente, não depende de mim..."
Também o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, prestou homenagem a Miguel Portas, lembrando que apesar das divergências políticas, o eurodeputado do BE “era uma personalidade muito respeitada por todos”. “Foi um homem de convicções que se bateu com uma intensa actividade cívica desde muito novo”, disse Passos Coelho aos jornalistas.
Daniel Oliveira salientou ainda “o exemplo de coragem brutal que Miguel Portas demonstrou a vida toda”. Ou como lhe chamou Pedro Santana Lopes: “um revolucionário doce”. “Foi uma pessoa que lutou sempre por aquilo em que acreditou mas sempre com educação, classe e determinação”, disse o antigo presidente do PSD, lembrando que “quando se tinha um debate com ele não se ficava exactamente como se tinha começado porque ele fazia as pessoas pensar”. “Todos fazem falta mas há uns que deixam uma saudade especial e o Miguel é um deles”, acrescentou ainda Santana Lopes.
Homem respeitado, corajoso e de convicções foram as palavras que mais se ouviram durante a tarde. De Ramalho Eanes, a Jorge Sampaio, passando por Mário Soares, Marcelo Rebelo de Sousa, Miguel Relvas, Miguel de Sousa Tavares, Vasco Lourenço, Ferro Rodrigues e Fernando Seabra. Também os seus colegas eurodeputados Elisa Ferreira (PS), Diogo Feio (CDS) e Rui Tavares, e os deputados Inês Medeiros (PS), Luis Fazenda, Joana Amaral Dias e Ana Drago (BE) e o ex-candidato do PCP à presidência da República António Abreu, fizeram questão de prestar a sua homenagem.
E houve ainda muitos nomes conhecidos do jornalismo, como Mário Crespo ou Judite de Sousa, e personalidades das artes, como o maestro António Vitorino d´Almeida, Camané, Sérgio Godinho ou Pilar del Río.
Por volta das 19h30 as portas foram fechadas e a família pôde finalmente ter um momento privado e despedir-se de Miguel Portas, que seria então cremado. No domingo há uma homenagem pública, às 14h, no Teatro São Luiz.
Todos querem entrar, alguns apenas por curiosidade, outros para se despedirem do colega e amigo Miguel Portas, que morreu na terça-feira, aos 53 anos, de cancro no pulmão, no Hospital ZNA Middelheim, em Antuérpia, deixando ainda uma palavra de força e incentivo à família, nomeadamente aos pais Helena Sacadura Cabral e Nuno Portas e aos irmãos Paulo Portas e Catarina Portas, que estão ao lado do caixão fechado, assim como o actual dirigente do BE, Francisco Louçã.
São muitas as flores, que estão espalhadas no salão do Palácio, na sua maioria cravos, lembrando assim o homem que sempre lutou pelos seus ideais. À porta são deixadas mensagens de despedida num livro, que será depois entregue à família. E para os que querem guardar uma última lembrança de Miguel há um postal com uma fotografia dele ainda jovem e com um cigarro na boca. Ao lado, assinado por Miguel Portas, está escrito: "As atitudes têm de servir para algo mais do que conquistar votos ou justificar passados. Têm de ajudar a inventar um futuro em que as pessoas possam crescer não em função do que têm mas do que podem ser. E isso depende de vocês. Felizmente, não depende de mim..."
Também o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, prestou homenagem a Miguel Portas, lembrando que apesar das divergências políticas, o eurodeputado do BE “era uma personalidade muito respeitada por todos”. “Foi um homem de convicções que se bateu com uma intensa actividade cívica desde muito novo”, disse Passos Coelho aos jornalistas.
Daniel Oliveira salientou ainda “o exemplo de coragem brutal que Miguel Portas demonstrou a vida toda”. Ou como lhe chamou Pedro Santana Lopes: “um revolucionário doce”. “Foi uma pessoa que lutou sempre por aquilo em que acreditou mas sempre com educação, classe e determinação”, disse o antigo presidente do PSD, lembrando que “quando se tinha um debate com ele não se ficava exactamente como se tinha começado porque ele fazia as pessoas pensar”. “Todos fazem falta mas há uns que deixam uma saudade especial e o Miguel é um deles”, acrescentou ainda Santana Lopes.
Homem respeitado, corajoso e de convicções foram as palavras que mais se ouviram durante a tarde. De Ramalho Eanes, a Jorge Sampaio, passando por Mário Soares, Marcelo Rebelo de Sousa, Miguel Relvas, Miguel de Sousa Tavares, Vasco Lourenço, Ferro Rodrigues e Fernando Seabra. Também os seus colegas eurodeputados Elisa Ferreira (PS), Diogo Feio (CDS) e Rui Tavares, e os deputados Inês Medeiros (PS), Luis Fazenda, Joana Amaral Dias e Ana Drago (BE) e o ex-candidato do PCP à presidência da República António Abreu, fizeram questão de prestar a sua homenagem.
E houve ainda muitos nomes conhecidos do jornalismo, como Mário Crespo ou Judite de Sousa, e personalidades das artes, como o maestro António Vitorino d´Almeida, Camané, Sérgio Godinho ou Pilar del Río.
Por volta das 19h30 as portas foram fechadas e a família pôde finalmente ter um momento privado e despedir-se de Miguel Portas, que seria então cremado. No domingo há uma homenagem pública, às 14h, no Teatro São Luiz.
Publico
sábado, 28 de abril de 2012
por Daniel Oliveira
Fica aqui o texto que publiquei, hoje, no "Expresso", sobre o Miguel. Pela intensa amizade e cumplicidade pessoal, política e profissional que com ele mantive, nos últimos 22 anos, falta-me o distanciamento que consegui ler noutros, em textos muito mais claros e relevantes sobre o que foi a vida e o percurso do Miguel. Tentei, mas não consegui. Uma espécie de anestesia não me deixa. Mas era obrigatório passar para o papel (era no papel que o Miguel se entendia) o imenso carinho que tinha, que tenho, que sempre hei de ter por este ruivo que mudou, em muitas coisas, talvez em muitas mais do que ele julgava, a minha vida. Sinto falta dele, e isso impede-me de escrever com clareza. Ficam as minhas desculpas por isso. Mas, mesmo assim, tenho de deixar escrito.

Nada tenho a escrever sobre política. O Miguel não me perdoaria isto. Deixar passar uma semana sem me entregar ao que sei fazer. As duas coisas a que me dediquei na vida – a política e o jornalismo – fiz ao lado dele, com ele. E para ele, por pior que tudo corresse, a escrita e a política não esperavam pelos nossos estados de alma. Nessa matéria, era implacável. Mas tinha, apesar disso, uma fome de vida como nunca vi em ninguém. E desconfiava de quem só vivia para grandes causas. Como podemos nós compreender o que devemos fazer pelos outros se nada sabemos deles? Como podemos nós lutar pelo outro se ele não for mais do que uma abstração? O Miguel gostava de pessoas antes de gostar de uma ideia.
Não, não me preparo para um panegírico. Panegíricos fazem-se a heróis. E o Miguel não era um herói. Não era uma estátua. Sim, foi detido com 15 anos pela PIDE. Sim, foi militante comunista quando era difícil. Sim, viveu sempre dividido entre a lealdade à sua “tribo” e o imperativo de não defender aquilo em que não podia acreditar. Mas, da sua coragem, o que mais importava era o desplante. Ter organizado os primeiros concertos em Lisboa quando isto era um deserto. Ter lançado um jornal e uma revista de esquerda quando isso era impensável. Ter-se mudado para o Alentejo e para a serra algarvia para trabalhar em desenvolvimento local quando o seu “estatuto” não o obrigaria. Ter voltado ao jornalismo, várias vezes, para nos oferecer maravilhosos documentários e livros. Ser, e isso era uma das nossas muitas cumplicidades, um incurável viajante. Os seus olhos terem continuado, até ao último dia, a brilhar com cada coisa nova que descobria, com cada coisa velha que defendia. Dos seus míticos ataques de fúria passarem com a mesma inesperada rapidez com que chegavam. Com as mulheres, com os lugares, com a política, com o trabalho, com tudo, o Miguel era intenso.
O Miguel era irremediavelmente humano em todos os seus defeitos e qualidade. Não faço um panegírico porque o Miguel não era apenas meu camarada. Não era sobretudo meu camarada. Era meu amigo. Com fraquezas, erros, injustiças. Como com todos os amigos, que não o são apenas por hábito, claro que me zanguei tantas vezes com o Miguel como ele se terá zangado comigo. Fizemos sempre as pazes sem uma palavra, apenas voltando porque tem de ser. O tempo permite que a amizade viva com o que não precisa de ser dito. E ao fim de 22 anos de um imenso carinho, mais de metade da minha vida, onde em cada momento me aparece o seu rosto, a sua voz, o seu riso estranho e o seu desvairado otimismo, os seus defeitos passaram a ser tão indispensáveis como as suas qualidades. Parte de mim.
O Miguel morreu (custa escrever) indecentemente cedo. Cedo demais para toda a energia que tinha e que, até ao último minuto, nunca o abandonou. Cedo demais para todos, e éramos muitos, que dele dependiam, como se depende de uma casa que, mesmo com infiltrações, sempre foi a nossa. Mas uma coisa é certa: o Miguel teve uma vida cheia. E encheu as dos outros. E como ele não me perdoaria que não falasse de política, deixou a nossa muitíssimo mais pobre. Há pouca gente com a sua ousadia. Na política, mundo repleto de bonecos insufláveis, não há quase ninguém. Sim, talvez o País aguente todas as perdas. Talvez a esquerda supere esta. Para mim, para todos os seus amigos, é que é mais difícil tapar este buraco.
Publicado na eição de hoje do "Expresso"
Nada tenho a escrever sobre política. O Miguel não me perdoaria isto. Deixar passar uma semana sem me entregar ao que sei fazer. As duas coisas a que me dediquei na vida – a política e o jornalismo – fiz ao lado dele, com ele. E para ele, por pior que tudo corresse, a escrita e a política não esperavam pelos nossos estados de alma. Nessa matéria, era implacável. Mas tinha, apesar disso, uma fome de vida como nunca vi em ninguém. E desconfiava de quem só vivia para grandes causas. Como podemos nós compreender o que devemos fazer pelos outros se nada sabemos deles? Como podemos nós lutar pelo outro se ele não for mais do que uma abstração? O Miguel gostava de pessoas antes de gostar de uma ideia.
Não, não me preparo para um panegírico. Panegíricos fazem-se a heróis. E o Miguel não era um herói. Não era uma estátua. Sim, foi detido com 15 anos pela PIDE. Sim, foi militante comunista quando era difícil. Sim, viveu sempre dividido entre a lealdade à sua “tribo” e o imperativo de não defender aquilo em que não podia acreditar. Mas, da sua coragem, o que mais importava era o desplante. Ter organizado os primeiros concertos em Lisboa quando isto era um deserto. Ter lançado um jornal e uma revista de esquerda quando isso era impensável. Ter-se mudado para o Alentejo e para a serra algarvia para trabalhar em desenvolvimento local quando o seu “estatuto” não o obrigaria. Ter voltado ao jornalismo, várias vezes, para nos oferecer maravilhosos documentários e livros. Ser, e isso era uma das nossas muitas cumplicidades, um incurável viajante. Os seus olhos terem continuado, até ao último dia, a brilhar com cada coisa nova que descobria, com cada coisa velha que defendia. Dos seus míticos ataques de fúria passarem com a mesma inesperada rapidez com que chegavam. Com as mulheres, com os lugares, com a política, com o trabalho, com tudo, o Miguel era intenso.
O Miguel era irremediavelmente humano em todos os seus defeitos e qualidade. Não faço um panegírico porque o Miguel não era apenas meu camarada. Não era sobretudo meu camarada. Era meu amigo. Com fraquezas, erros, injustiças. Como com todos os amigos, que não o são apenas por hábito, claro que me zanguei tantas vezes com o Miguel como ele se terá zangado comigo. Fizemos sempre as pazes sem uma palavra, apenas voltando porque tem de ser. O tempo permite que a amizade viva com o que não precisa de ser dito. E ao fim de 22 anos de um imenso carinho, mais de metade da minha vida, onde em cada momento me aparece o seu rosto, a sua voz, o seu riso estranho e o seu desvairado otimismo, os seus defeitos passaram a ser tão indispensáveis como as suas qualidades. Parte de mim.
O Miguel morreu (custa escrever) indecentemente cedo. Cedo demais para toda a energia que tinha e que, até ao último minuto, nunca o abandonou. Cedo demais para todos, e éramos muitos, que dele dependiam, como se depende de uma casa que, mesmo com infiltrações, sempre foi a nossa. Mas uma coisa é certa: o Miguel teve uma vida cheia. E encheu as dos outros. E como ele não me perdoaria que não falasse de política, deixou a nossa muitíssimo mais pobre. Há pouca gente com a sua ousadia. Na política, mundo repleto de bonecos insufláveis, não há quase ninguém. Sim, talvez o País aguente todas as perdas. Talvez a esquerda supere esta. Para mim, para todos os seus amigos, é que é mais difícil tapar este buraco.
Publicado na eição de hoje do "Expresso"
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