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domingo, 1 de julho de 2018

Lisboa, em “Marchas” atrás


Manuel Augusto Araujo
Marchas-Populares-2013
As Marchas Populares são uma tradição inventada por Leitão de Barros, enquadrada no espírito de António Ferro, de quem era colaborador próximo, que via Portugal como uma “Caravela de Sonhos”, “Uma Canção Cheia de Redondilhas”. Uma invenção que fez o seu caminho, ganhou raízes em Lisboa e até, mais tarde, se propagou para outras cidades. Quando em 1932, Leitão de Barros organiza as primeiras Marchas Populares tinha vários objectivos em carteira: o mais imediato reanimar o Parque Mayer, o outro, mais importante e que foi alcançado, implicar colectividades de cultura e recreio numa actividade de divertimento que lhes ocuparia tempo e energia, reduziria os tempos das actividades culturais e educativas, olhadas com alta desconfiança e que estavam a ser rigorosamente controladas por serem uma forma de resistência à ditadura em fase de estabilização do seu modelo fascista,
No primeiro concurso, os participantes Alto Pina, Bairro Alto e Campo de Ourique, exibiram-se no Parque Mayer na véspera do dia de Santo António, feriado municipal. O sotaque lisboeta, que se dizia ser o motor do evento, desaparecia sob os trajes minhotos da marcha vencedora, Campo de Ourique, prenúncio de um folclore que anos mais tarde iria fazer vencimento na RTP pela mão de Pedro Homem de Mello, outro inventor de tradições muito e bem satirizado por Fernando Lopes-Graça.
O êxito desse espectáculo patrocinado pela empresa do Parque Mayer, foi enorme. Quinze dias depois, no dia de São Pedro, repetiu-se com a participação de mais três ranchos: Alfama, Madragoa e Alcântara. Leitão de Barros, um excelente animador cultural e jornalista de sucesso, consegue forte cobertura mediática que pressiona o reconhecimento oficial das Marchas Populares. No Diário de Lisboa (!3/Junho/1932) escreve-se “lançaram-se os fundamentos para uma grande festa anual, tipicamente portuguesa e popular, a organizar com extensão e superior critério, e que a Câmara Municipal devia tomar a si”Um dia depois o Diário de Notícias insiste: “As municipalidades têm, além de outras missões, também a de cultivar as tradições, aproveitando o manancial inesgotável de fantasia e de alegria do povo, a fim de, por vezes, quebrar a monotonia da cidade, essa espécie de tristura contemporânea que deforma, afinal, a verdadeira índole da nossa gente”O fascismo estava a por em práticauma política contra a “tristura contemporânea”Nada como tornar o país fechado a sete chaves, pobrete mas alegrete. Em 1935 inaugura-se a FNAT- Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, no dia 13 de Junho, quando em Lisboa as Marchas Populares tinham saído para a rua, eram um espectáculo com grande apoio popular. Já em 1934 tinham marchado do Terreiro do Paço até ao Parque Eduardo VII, 12 bairros e 800 marchantes, uma assistência calculada em 300 mil pessoas. Em 1935, a Câmara Municipal de Lisboa dá posse a uma Comissão de Festas da Cidade e assume o patrocínio da Grande Marcha da Cidade, a celebrizada Lá Vai Lisboa de Norberto Araújo e Raul Ferrão. Leitão de Barros tinha conseguido, percorrendo todos os bairros da cidade, originar um folclore local, em que cada bairro procurava encontrar os traços específicos da sua identidade. O enorme êxito das Marchas Populares só foi interrompido pela II Guerra Mundial, sendo imediatamente retomado, tendo alcançado o seu ponto máximo nos anos 50, com a participação do município de membros do governo. Segue-se um período de menos brilho e o seu desaparecimento no pós-25 de Abril, por se ter considerado as marchas uma manifestação do antigo regime, o que eraum facto que não atendeu a que a tradição inventada tinha criado fortes raízes que virão a ser ressuscitadas pela EGEAC nos anos 80, com sucesso que só tem paralelo aos dos seus anos mais brilhantes. Ressurgiram nos seus moldes mais tradicionais em que letras, músicas, coreografias e encenações estão alheios ao envolvimento sócio-político. Nem os violentos anos da troikafizeram bulir as Marchas que desfilam como se durante aqueles dias tivesse sido decretada uma trégua olímpica.
Tudo continuaria a correr sem sobressaltos de maior para os arcos balões e passos de danças e contra-danças se as políticas urbanas que se tem implementado em Lisboa não começassem a ser uma térmita das Marchas Populares. As Marchas bem tentam mostrar uma realidade dos bairros que é cada vez mais uma ficção. Começa a ser uma pesada evidência que a maioria dos marchantes foi excluída dos bairros que continuam a representar. O futuro das Marchas, na sua configuração em que o espírito bairrista é o pulsar de cada marcha, independentemente do que se possa analisar ou mesmo criticar sobre a sua génese, está ferido pela deslocalização forçada dos lisboetas por políticas urbanas que pensam a cidade não em função dos seus munícipes mas de uma cidade calculada a preço metro quadrado em que a monocultura do empreendedorismo turístico e daespeculação imobiliária é dominante, espalhando os seus tentáculos por todo o lado, como se pode ver pelas alterações aos planos de urbanização, a desqualificação de edifícios de interesse públicono traçado proposto para o metropolitano que só tem essa justificação, por mais contorções e habilidosos sofismas do presidente da Câmara de Lisboa a travestir a realidade que é a de Lisboa estar entregue a um conluio de políticos e especuladores imobiliários que ofertam a cidade a essa melancólica multidão solitária que atafulha o eléctrico 28 e o elevador de Santa Justa, deambula entre fotos selfies, colecciona magras recordações. O turismo, um importante sector de negócio, é também um mal que está a matar Lisboa, tal como está a matar outras cidades europeias que seguem o mesmo modelo em que os seus patrimónios perdem significado histórico são vendidos nos mercados dos bens culturais, o sentido de as habitar não tem qualquer importância.
Os marchantes resistentes serão cada vez menos, as memórias dos seus descendentes já serão outras. Com a manutenção dessas políticas subjugadas pelos interesses imobiliários em breve veremos os edis que dirigem os destinos da Câmara de Lisboa a presidirem com sorrisos de plástico, que sempre são mais baratosa desfiles de marchas contratadas nos arredores para manter uma tradição que se vende a pataco. Bem podem começar a preparar uma marcha multicultural verde alfacinha para desfilar em 2020, quando Lisboa for Capital Verde Europeia, encabeçada pelo “cheerleader” zé que não faz falta a Lisboa e um exército de marchantes mercenários recrutados entre lisboetas corridos para as periferias, para onde a bolha imobilíária com epicentro na capital começa a alastrar, e não lisboetas suburbanos, a engrossar os elencos marchantes que podem mesmo desconhecer o bairro sob que bandeira desfilam. Nada como continuar a marchar para alegria do parque de diversões em que a cidade se está a transformar. Marchem, continuem a marchar cantando e rindo enquanto a monocultura do turismo vai esvaziando Lisboa dos seus habitantes, à imagem e semelhança do que está a acontecer em muitas outras cidades da Europa, para criar a ilusão que a cidade não se está a transformar num museu em que se degradam as relações vivas entre os seus habitantes e as memórias da cidade se estratificam para serem visitadas, dando-lhe a vitalidade económica que é também a causa do seu suicídio. Marchem, não deixem morrer as marchas para iludir o desmantelamento da cidade pelo seu progressivo despovoamento alinhando Lisboa por esse modelo global em que habitar perde sentido, as cidades se tornam idênticas terras de ninguém para o turismo. Marchem, não deixem morrer as marchas para fingir que a cidade está viva. Marchemcom marchantes que desçam à cidade de onde foram excluídos por rendas impossíveis, para sustentar a enorme falácia em que se tornou o direito à cidade.
As cidades não podem estar condenadas a essa danação em que os seus centros históricos se transformaram nuns buracos negros de políticas urbanas sem qualidades que os transformam em parques temáticos em que se acotovelam visitantes de sociabilidades massificadas de um cosmopolitismo fruste que borboloteia entre pólos de atracção onde desembarcam em maratonas com tempos cronometrados, fachadas recuperadas do seu património edificado de onde são progressivamente excluídos os seus habitantes e os grandes eventos, que antes de o serem já assim são anunciados, acumulam-se, repetem-se concorrem entre si nas mais diversas geografias. Cidades de actividade económica pauperizada por uma unicultura da Cidade-Empresa do pensamento único, em que a ideia de Cidade e de Poder Local se esvaziam tomados de assalto pelo neo-liberalismo, transformando-as num território de negócios desvinculado das necessidades humanas.
Os fortes sinais de alarme contra essa cultura que deixa morrer as cidades privatizando-as para oferecer as suas imagens e as suas obras ao consumo, são antigos, tiveram eco na altura, rapidamente foram sepultadas pelas cáfilas de políticos e especuladores imobiliários que sempre marcharam de braço dado pelas alcatifas dos gabinetes em que se riscam as políticas urbanas. Agora, a um passo do abismo em que muitas cidades europeias, Lisboa em franca aceleração para ficar na linha da frente, é de relembrá-los. Foram enunciados nos finais dos anos 60 sobretudo por Henri Lefébvre, em O Direito à CidadeContra os Tecnocratas(*), dois textos a reler com urgência que se tem repercutido noutros igualmente importantes (**) de avisos sérios para este estado de coisas da alienação das cidades, em que vender a cidade se tornou o objectivo central do Poder Local. Dois textos que também fazem renascer a esperança de que as ciências humanas, em particular a sociologia e a psicologia, saiam do pântano do pensamento inutilitário em que, nestes tempos pós-modernos, se têm afundado.
                                                                                           

(publicado em  http://www.abrilabril.pt/ )
(*) O Direito à Cidade, Henri Lefébvre, Letra Livre, 2012
Contra os Tecnocratas- Acabar com a Ficção CientíficaHenri Lefébvre, Moraes Editores, 1968
(**) Le Capitalisme contre le Droit à la Ville, David Harvey, Amsterdam, 2011
Naked City, The Death and Life of Authentic Urban Places, Sharon Zukin, Oxford University Press, 2010

pracadobocage.wordpress.com

OS VENDILHÕES DO TEMPLO - O BETÃO NÃO É SOLUÇÃO



Jorge Mangorrinha, especialista em turismo, exprime de forma particularmente clara, o ciclo maldito que tem estado na base do desenvolvimento do Algarve nas últimas décadas: «urge pensar os novos territórios, salvaguardando-os do turismo autofágico, que acaba por subtrair, desses territórios, os recursos que estimularam a sua ocupação. Depois de tornar insuportável o atrativo, os seus responsáveis saem à procura de outros lugares para iniciarem o mesmo processo, e corremos o risco de o país ir perdendo capacidade competitiva no turismo».
O projeto de construção de um novo empreendimento, a Quinta do Oceano, na fronteira com uma das últimas zonas virgens do nosso litoral algarvio, virado a sul, a zona do Trafal e a foz do Almargem, é esclarecedor de que pouco ou nada mudou na dinâmica desenvolvimentista autofágica que teima em subsistir, e que muito previsivelmente vai continuar, até não haver mais nada para desbravar.
A associação Almargem divulgou há uns dias um comunicado no qual revela as peripécias ocorridas em torno de todo o processo que conduziu à aprovação de tal empreendimento. E que é paradigmático daquilo que se tem passado nas últimas décadas no Algarve, com centenas de situações idênticas e cujo resultado final tem sido, invariavelmente, o mesmo. Isto é, a penalização dos valores paisagísticos e patrimoniais, com o inerente empobrecimento e desordenamento do território e a perda da qualidade ambiental com prejuízo direto para as populações (e para os turistas).
No meio do labirinto jurídico-legal tecido pelos PDMs, Planos de Pormenor, pedidos de licenciamentos para loteamento, classificações de «espaço urbano», processos de urbanização, POOCs, avaliações de impacte ambiental, classificações de «áreas protegidas» falhadas, cedência de terrenos para permuta, o resultado final acaba sempre no mesmo epílogo – o triunfo dos interesses económicos puros e duros.
Perante tal cenário tem que ser dito, sem qualquer ambiguidade, que as autoridades que têm governado o Algarve nas últimas décadas sempre revelaram um total divórcio e ignorância relativamente aos valores ambientais, patrimoniais e culturais. Nada melhor que verificar a qualidade da obra feita e que se traduz no estado irreconhecível a que a nossa terra chegou: o nosso precioso litoral vandalizado por uma ignóbil muralha de betão e, mais recentemente, pelos enchimentos com areão de algumas das suas praias mais idílicas; a típica paisagem do barrocal que perdeu, quase na totalidade, os seus muros brancos, as suas casas caiadas, as chaminés, as platibandas e as açoteias, tendo sido invadida por milhares de casas de arquitectura horrenda, estando, para além disso, também a perder as suas árvores tradicionais sob o ímpeto das monoculturas de uma agricultura intensiva e destrutiva; as cidades, vilas e aldeias descaracterizadas de uma ponta à outra com poucos edifícios ainda íntegros, resquícios de uma arquitectura excepcional que em tempos detiveram.
O paraíso de outrora está feito em fanicos e basta, por exemplo, percorrer a principal via do Algarve, A Estrada Nacional 125, para comprovarmos de forma indesmentível que estamos numa região subdesenvolvida, do mais retinto carácter terceiro-mundista. O caos, a fealdade e o desordenamento entranharam-se em cada interstício desta terra prostituída.
Na sua obtusidade em prol do «progresso», as autoridades e executivos que têm gerido o Algarve demonstraram uma cegueira confrangedora, não reparando sequer, que habitavam num lugar raro, com uma das maiores concentrações de valores ambientais e estéticos em todo o mundo. Esta circunstância inconcebível explica-se, sobretudo, pela inata e total falta de respeito e de amor pela terra que sempre revelaram.
A Câmara Municipal de Loulé, em mais este caso deplorável de ofensiva contra o que de pouco ainda resta de incólume na sua zona de administração, insiste na mesma receita, ignorando o doloroso histórico de barbárie que tem desabado sobre esta terra. Foram demasiadas décadas para ainda não se ter aprendido com os erros cometidos.
Fernando Silva Grade é artista plástico e ativista.


barlavento.pt