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sábado, 31 de dezembro de 2016

O Tigre de Tipu.


 
 



 
 
 
Parece um animal feroz, mas não passa de um boneco articulado. Como o Pinóquio. A primeira vez que o vi mirei-o só de relance, às pressas, quando ia atrasado para almoçar no V&A. Mas logo então fiquei ofuscado pela fearful symmetry das suas riscas, como diz Blake no poema famoso. Depois de almoço, regressei ao interior do Victoria and Albert Museum, onde a fera está exposta sem particular destaque, no meio de uma vitrina, rodeada de abundante tralha, toda muito linda.
O Tigre era certamente das peças menos opulentas do majestoso espólio do sultão Tipu, que os pérfidos ingleses pilharam após conquistarem o reino de Mysore em 1799. Durante anos, Tipu tinha desafiado o poder britânico, infligindo-lhe derrotas humilhantes que a imprensa inglesa iria caricaturar sem piedade alguma. «Melhor viver um só dia como tigre do que como ovelha toda a vida» é uma frase atribuída ao sultão Tipu, que pelos vistos conhecia o célebre dito de Luísa de Gusmão, mãe da futura rainha Catarina, que levaria para Inglaterra o hábito de beber chá mas também, já agora, a compota de laranja e outras duas coisas, até aí desconhecidas nas Ilhas Britânicas: o higiénico uso de talheres e o malfazejo consumo do tabaco.
 
 
 
A monção e as chuvas fizeram fracassar uma primeira expedição contra o poderoso Tipu. A imprensa londrina, sempre dada ao tablóide, vergastou os vencidos. Os alunos de Oxford faziam apostas entre si sobre quem iria ganhar aquele choque de civilizações. Mais tarde, um exército melhor equipado conseguiu impor a Tipu um tratado leonino, através do qual o sultão não só cedia aos ingleses metade do seu reino como dava como garantia os dois filhos do seu sangue, a título de caução. Os filhos foram devolvidos, mas o reino não. E até lhe ficaram com a outra metade. E até lhe destruíram o palácio inteiro, chegando ao ponto de vilipendiar o seu cadáver, cortando-lhe o bigode. Por herança de seu pai, Tipu ascendera ao trono de Mysore em 1782, dominando uma região imensa, quase tão grande como o seu orgulho. O pai, Haydar Ali, era homem de poucas letras, talvez mesmo analfabeto, mas o filho Tipu teve uma educação principesca, falando várias línguas. Acontece que a maioria do povo da sua terra vastíssima era hindu, enquanto Tipu professava no Islão. E no Islão linha dura, defendendo até a jihad contra os infiéis. Nas cartas que escrevia a outros monarcas muçulmanos abundam as referências à jihad, que em árabe significa literalmente «último esforço», ou seja, guerra aos descrentes. O seu trono e as armas dos seus soldados tinham ornatos de tigres mas também a palavra «Alá» ou versículos do Corão. O sultão tinha vários hábitos, todos péssimos, um dos quais consistia em mandar que os seus prisioneiros, europeus incluídos, fossem circuncisados. Uma gravura da época mostra um recluso em Mysore, de seu nome Richard Chase, com um ar bastante abatido e tristonho. Um outro prisioneiro, o irlandês Cromwell Massey, escreveu um diário secreto enquanto padecia as últimas nas masmorras do sultão Tipu; o documento, que sobreviveu miraculosamente, faz descrições terríveis do que se passava na cidadela fortificada de Seringapatam.
 

 
 
Não admira que, quando chegaram a Inglaterra as primeiras notícias do cerco ao palácio de Tipu e do iminente branqueamento da capital, o empresário de espectáculos Philip Astley, que enriquecera exibindo artes equestres ao público londrino, organizasse de imediato uma extravaganza, «The Storming of Seringapatam». Com mais de cem personagens e uma quadrilha de cavalos, máquinas ululantes e fumos de cena, foi um estrondo de bilheteira, com casas cheias até 1829.   
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Tipu escolheu o tigre como emblema – e o seu trono octogonal estava adornado por cabeças de tigres, revestidas a oiro. No centro do trono, um tigre possante, também a oiro, que hoje, claro está, se encontra na posse dos ingleses, mais precisamente na colecção real (quem o quiser ver, estará em exibição em Londres, na Queen’s Gallery, até finais de Fevereiro de 2015,numa exposição de cinquenta peças expressivamente intitulada Gold). Jóias, armas d’aparato, vestidos de seda delicadíssima, tudo foi devastado – ou, melhor, saqueado e vendido, disperso em leilão feito pela East India Company. Sendo das menos valiosas peças do tesouro de Tipu, o Tigre tornou-se a mais conhecida, em parte devido à atracção que nos séculos XVIII e XIX existia por automata e máquinas articuladas, em parte porque o Tigre de Tipu é, de facto, um objecto fascinante. Feito em madeira por volta de 1799, mostra um tigre a devorar um ser humano, um branco, ocidental. Não se sabe se a vítima é civil ou militar. Possivelmente, a peça inspira-se num episódio macabro passado nas costas de Bengala. Segundo o relato distinto do Gentleman’s Magazine, de Julho de 1793, o jovem Hugh Munro, o filho único do general Sir Hector Munro, foi esventrado por um tigre enquanto repousava com os amigos, numa pausa da sua jornada de recreio e caça na Ilha de Sagar (já agora: uma ilha que está prestes a desaparecer, tragando homens e tigres, devido ao aquecimento global,aqui).   
 
A tragédia de Munro numa peça de porcelana Staffordshire (c. 1814)
 
Sendo a tragédia de Munro a fonte de inspiração, ou não, o certo é que Tipu mandou fazer dezenas de imagens em que os europeus – ou, mais precisamente, os ingleses – eram esquartejados alegremente por animais: leões, elefantes e sobretudo tigres. Tipu mantinha tinha os franceses por aliados e diz-se ser muito provável que o Tigre e a maquinaria existente nas suas vísceras tenham sido fabricados com o auxílio de artistas habilidosos vindos de Paris. Além da nota descritiva do V&A, a Wikipedia conta a história do Tigre e também aqui (http://www.tigerandthistle.net/) se pode saber alguma coisa do bicho. Mas nada substitui a leitura de um livro formidável, profusamente adornado com imagens dos tesouros de Tipu. De Susan Stronge, Tipu’s Tiger é editado pelo próprio V&A e, em poucas páginas, produz uma envolvente «narrativa» (para usar um termo agora muito em voga) sobre a ascensão ao trono de Tipu, o seu acidentado reinado, e as atribulações do tigre de madeira. O livro de Stronge reproduz relatos da época da captura de Tipu, que asseguram que este só foi morto por ter resistido a um soldado que lhe queria tirar o cinto. Ficarmos assim, de calças na mão, é sempre aborrecido de acontecer; para mais, tratava-se certamente de um cinto adornado com pedras preciosas ou, no mínimo, semipreciosas. O que os relatos da época não explicam é a razão que levou a autorizar que profanassem o cadáver de Tipu (foi, aliás, um oficial superior que perpetrou esse crime). Certo é que autoridades reprimiram com dureza os saqueadores oportunistas, enforcando quatro de uma vez, para servir de exemplo. De caminho, mataram a tiro os tigres de carne e osso que o sultão tinha no seu palácio. Quanto ao abundante guarda-roupa do sultão, os ingleses tiveram a cortesia de convidar os filhos de Tipu a escolherem algumas peças de vestuário do pai, como recordação. Depois, iria tudo à praça, num leilão organizado pela East India Company. Na cidade, porém, correu o rumor que os muçulmanos se preparavam para arrematar todos os lotes, distribuindo as vestes de Tipu pelos crentes, como relíquias «do profetismo e da santidade do seu carácter». A Companhia cancelou a hasta pública do guarda-roupa, guardou as 57 túnicas (ou jamas), os 84 turbantes (dois dos quais com inscrições corânicas), os 54 casacos e diversos pijamas de Tipu, transportando-os para Londres. O interior do palácio de Seringapatam foi vilmente destruído em 1808, o mesmo acontecendo com o palácio Lal Bagh, outra residência de Tipu, cujos destroços seriam usados em 1829 na construção de uma pequena igreja cristã, St. Stephen, em Ootacamund. O triunfo do Império foi assinalado de uma forma bastante simbólica, prenhe de significado: cunharam-se medalhas que mostravam um leão, ícone britânico, a dominar um tigre, o animal predilecto do sultão Tipu.
 
 
 

As medalhas, feitas às centenas ou aos milhares, foram distribuídas pelas tropas vencedoras, sendo dadas sobretudo aos cipaios, isto é, aos soldados de origem indiana, para que estes espalhassem entre a população nativa o símbolo do novo poder. Enganaram-se. O poder de Tipu permanece – e pujante. Na Índia, devido aos seus canhões com tigres e aos «mísseis de Mysore», Tipu é considerado um visionário, o pai do lançamento de foguetes e mísseis, celebrado oficialmente. Um indiano da América, vivendo no remoto estado de Montana, lembrou-se de fazer uma bebida em sua honra (http://tipustigerchai.tripod.com/). Há filmes (The Sword of Tipu Sultan, 1990), peças de teatro (The Dreams of Tipu Sultan, 1997), desfiles,sites comemorativos, livros infantis e até, obviamente, tatuagens com o tigre anticolonialista. Para quem puder dispensar 48 minutos do seu domingo a ver uma série indiana, eis o sultão, Tipu no seu esplendor:
 
 


 




 
Se o Tigre de Tipu tivesse pedras preciosas ou adereços de ouro, certamente teria tido outro destino. Sobreviveu. Nas suas entranhas, um intricado sistema de tubos emitia o som pavoroso de um homem a ser devorado por um felino ferocíssimo. Há quem refira que a caixa de música tem uma vaga associação às gaitas de foles tocadas pelos exércitos escoceses – o que, a ser verdade, não deixa de constituir uma refinada ironia. Quando a peça foi trazida para Inglaterra, instalaram-na na biblioteca da East India House (também para lá foi a cabeça gigantesca do tigre que estava no trono de Tipu, e que mais tarde, em 1831, seria oferecida ao rei William IV). Os estudantes e os investigadores que frequentavam a biblioteca – e que estavam ali para fazer o que faz um verdadeiroestudante, que é estudar à séria, sossegada e discretamente  – ficavam incomodados com o corrupio de pessoas que só iam à livraria para ouvir o Tigre e os seus rugidos, agora inofensivos mas ainda assim bastante incomodativos. Os visitantes podiam até dar à manivela para ouvir o som que emitia. Parece que tanto o tocaram que o animal se avariou, e a caixa de música nunca mais deu sinal de si, fazendo dó. Mas no V&A, para onde o animal foi transferido em 1880, existe uma gravação do tenebroso rugido, que pode ser escutada. Há também uns vídeos no YouTube, pouco esclarecedores. Em todo o caso, aconselha-se o visionamento do segundo, sobre o restauro da peça.  
 
 
 
 
 
 
Com 1,72m de comprido, o bicho é enorme, quase em tamanho natural. O sultão gostava de ouvir o som terrível que produzia, entre outras malvadezas que fazia aos ingleses encarcerados nas masmorras do seu palácio, em Seringapatam a capital do reino de Mysore. A pintura é tipicamente indiana no cromatismo e nos acabamentos, tendo sido restaurada várias vezes ainda em vida de Tipu. Durante a 2ª Guerra Mundial, a peça foi seriamente danificada, ficando desfeita em centenas de pedaços, que cuidadosamente restauraram, ficando como nova logo em 1947. Repousa hoje numa cela de vidro do Victoria and Albert Museum, no meio de muita tralha de artes decorativas.

 
 
 
 
 
 
 
 
Quando descobriram a peça no palácio de Tipu, os ingleses ficaram impressionados pelo ódio que exalava. Chegaram ao ponto de querer levar o Tigre de Tipu para a Torre de Londres, como castigo: «this memorial of the arrogance and barbarous cruelty of Tippoo Sultan may be thought deserving of a place in the Tower of London», escreveu-se na altura. Prevaleceu o bom senso e o Tigre de Tipu é hoje uma peça de museu, a mais conhecida de todas do espólio do sultão de Mysore. Ao contrário do que sucedeu com as jóias e os adornos faustosos, o que o salvou da perdição foi justamente o seu escasso valor comercial, despojado que era de jóias rutilantes e materiais exóticos. Em contraste, o seu valor simbólico e histórico é enorme, muito superior ao dos muitos tigres de oiro e prata que deambulavam pelos salões do palácio de Tipu. De visita a Londres, para ver a Grande Exposição de 1851, Gustave Flaubert entediou-se de morte com o exibicionismo do Crystal Palace (sobre a construção deste edifício, Bill Bryson tem um relato apaixonante no seu livro Em Casa). Mas, ao ver o Tigre de Tipu, que na altura estava exposto na East India House, ficou maravilhado. Também John Keats se deixou encantar pela peça, fazendo-lhe alusão num longo poema que deixou por concluir (a play-thing of the Emperor’s choice / From a Man-Tiger-Organ, prettiest of his toys). Como Flaubert e Keats, muitos não conseguem resistir à atracção voraz do Tigre de Tipu, que serviu de inspiração a poetas e outros artistas, sendo alvo de vários pastiches recriações, quase todos de mau gosto. O pior exemplo, sem dúvida, é o texto cópia/cola que acabastes de ler.
 
António Araújo  
 
 
 

Bill Reid, Rabbit eating astroinaut, 2004



M. F. Husain, Tipu Sultan's Tiger, 1986 


 
 


malomil.blogspot.pt

 

EXCERTOS HISTÓRICOS - A TENEBROSA PIDE (repetição)


DIAS COELHO MILITANTE DO PARTIDO COMUNISTA PORTUGUES, ASSASSINADO PELA PIDE



CAÇA AO PIDE EM ABRIL DE 1974

RUA ANTÓNIO MARIA CARDOSO LISBOA - SEDE DA PIDE/DGS


A Polícia Política - Segundo a História de Portugal 

de A. H. de Oliveira Marques


A polícia política, cujas origens remontam  a 1926, foi reorganizada na década de 1930. Primeiro chamada Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (P. V. D. E.), passou a ser conhecida por Polícia Internacional e de Defesa do Estado (P. I. D. E.) a partir de 1945, data em que viu as suas atribuições consideravelmente ampliadas. Na época Marcelista foi a D.G.S - Direcção Geral de Segurança.

A Polícia Secreta portuguesa alcançou, sob regime de Salazar, em todas as esferas da vida nacional, tais limites de poder e penetração que desafiaram a autoridade do próprio Estado - incluindo a das Forças Armadas - e a converteram gradualmente num estado dentro dele.
Da mesma forma que a lnquisição, teve de justificar a sua própria existência e os seus amplos poderes pela «invenção» ou o exagero de ameaças à segurança do regime e pela «fabricação» de comunistas e de outros  perigosos opositores ao Estado Novo.

Movimento quer roteiro da ditadura de Salazar

Fernando Madaíl


Vocês podem imaginar isto tudo, amigos?” A interrogação da ex-presa Maria Fernanda Leitão foi publicada na revista Notícia, a 25 de Maio de 1974, sendo reproduzida no livro PIDE – A História da Repressão (coordenação de Alexandre Manuel, Rogério Carapinha e Dias Neves).
Sem a fama de Cunhal ou Soares, Jaime Cortesão ou Torga, Emídio Santana ou Palma Inácio, descrevia a repressão fascista. “O que era, em prisões destas, ser torturado, espancado, apodrecer nos curros, adoecer, tuberculizar, ter cancro, ter dores, vomitar, ter período menstrual, não tomar banho, tremer de frio, passar fome? Ninguém pode imaginar. Só vendo.”
“Vocês poderão imaginar, amigos”, prosseguia, “o que eram os interrogatórios, os insultos, a vida inteira devassada, avacalhada, o silêncio das noites, o isolamento, os anos passados, as cartas abertas, os parlatórios com microfones minúsculos debaixo dos mosaicos das paredes, as visitas com guardas ao lado? Ninguém pode imaginar. Só tendo passado por isto.”
Manuela Cruzeiro, na apresentação do livro Silêncio – Prisões Políticas Portuguesas, do fotógrafo Pedro Medeiros, invoca o título provocatório de Eduardo Lourenço, O Fascismo Nunca Existiu (1976). A investigadora do Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra escreveu antes de surgir o movimento Não Apaguem a Memória!, uma vez que a missão fotográfica de reconstituir o universo concentracionário e repressivo do Estado Novo decorreu entre 1999 e 2005 e os autores da petição ao Parlamento só se organizaram em Dezembro de 2005.
O roteiro essencial do fascismo português que este movimento cívico, sem direcção formal, pretende que seja criado passa por locais emblemáticos da brutalidade da polícia política, nomeadamente a sede central da PIDE/DGS em Lisboa, as cadeias do Aljube, Caxias e Peniche, o Tribunal Plenário. Mas um dos ícones do que Salazar designava por uns “safanões a tempo” – da tortura do sono e da estátua (o comunista Francisco Miguel esteve 51 dias de pé) até à morte -, o mais temível de todos, que era o campo de concentração do Tarrafal, não está em território português.
Edmundo Pedro, um dos cinco sobreviventes que estrearam o “campo da morte lenta”, onde estiveram desde o treinador de futebol Cândido de Oliveira ao escritor Luandino Vieira, lembra que o Tarrafal integra simultaneamente a memória do combate contra o nazi-fascismo (inaugurado em 1936, era cópia dos campos hitlerianos) e da luta anticolonial: encerrado em 1954, seria reaberto para os presos dos movimentos de libertação.
E, no entanto, o projecto também deve servir para enaltecer os “semeadores de liberdade”, como definiu os lutadores contra a ditadura o ministro Santos Silva. Afinal, só as fugas mais rocambolescas davam filmes: Nuno Cruz e outros reviralhistas foram brutalmente espancados por cúmplices que se fizeram passar por polícias que os iriam transferir de cadeia; José Magro e outros comunistas saíram de Caxias no carro blindado de Salazar; Palma Inácio serrou as grades da prisão da PIDE no Porto com limas que guardava nos frascos do chocolate e do leite em pó. Vocês podem imaginar?

(http://dn.sapo.
Quantas foram as vítimas dpt/2006/08/20/tema/movimento_quer_roteiro_ditadura_sala.html)a PIDE?
Fernando Madaíl

Desde o tempo em que Raul Proença editou um panfleto a denunciar a ditadura, logo em Dezembro de 1926, até Palma Inácio sair de Caxias de braços abertos a saudar a liberdade reconquistada em Abril de 1974, houve “não se sabe quantos” presos políticos durante o fascismo.
Um dos grupos de trabalho do movimento Não Apaguem a Memória! vai dedicar-se a fazer um levantamento, na Torre do Tombo, de todas as vítimas da ditadura militar e dos governos chefiados por Salazar e Marcelo Caetano.
Ao longo de 48 anos, passaram pelos calabouços do regime antigos ministros e militares do reviralho, anarquistas e comunistas, operários e camponeses, intelectuais de renome e funcionários públicos, maçons e sacerdotes, velhos republicanos e monárquicos anti-salazaristas, comunistas fiéis a Moscovo ou cisionistas pró-Pequim, africanos anticolonialistas e estudantes universitários, todas as correntes de opinião.
Na sede da PIDE/DGS, na António Maria Cardoso – nome da rua lisboeta que, a exemplo do que sucedia com a portuense Rua do Heroísmo, só de se pronunciar metia medo -, foi encontrado quase um milhão de nomes nos ficheiros, embora fossem incomparavelmente menos aqueles que tinham direito a fichas idênticas às que se publicam no topo destas páginas (de Álvaro Cunhal, Mário Soares, Palma Inácio, Dias Lourenço, Pires Jorge e Jaime Serra).
A designação PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) só foi usada entre 1945 e 1969, mas os métodos dos agentes de Agostinho Lourenço e de Silva Pais tornaram a sigla terrível. Antes, chamou-se Polícia Especial, Polícia de Informação Pública, Polícia de Defesa Política e Social, Polícia de Vigilância e Defesa do Estado. Depois da “Primavera Marcelista”, Direcção-Geral de Segurança (DGS).
SEDE DA PIDE NO PORTO


CARTEIRA DE FÓSFOROS USADA EXCLUSIVAMENTE PELA PIDE

SILVA PAIS CHEFE DA PIDE/DGS





DIRIGENTES COMUNISTAS PRESOS PELA PIDE

ALVARO CUNHAL PRISIONEIRO DA TENEBROSA PIDE
PRISÃO DE PIDE EM ABRIL DE 1974

As origens da PIDE


As origens da PIDE começaram em 1933, ano da criação oficial do Estado Novo.  É criada a Polícia de Vvigilância e de Defesa do Estado  (PVDE), com duas secções principais:

Secção Defesa e da Política Social, a fim de reprimir a oposição política actividades, impor censura, etc
Secção internacional, utilizadas para controlar a imigração, a deportação e os serviços secretos e de inteligência.

Em 1936  a PVDE criou o presídio do  Tarrafal em Cabo Verde, sob o seu controlo directo, como um destino para os presos políticos, que o regime considerava mais perigosos. Durante 40 anos de ditadura, 32 pessoas morreram no Tarrafal, devido aos rigorosos regimes de internamento.

Com a Guerra Civil Espanhola, e depois de um atentado contra Salazar por militantes anarquistas, aumenta a repressão, em especial contra o Partido Comunista Português. A PVDE, recebeu instrutores alemães e italianos, que tentaram adaptá-la à estrutura e os métodos da Gestapo. 

Durante a Segunda Guerra Mundial, Portugal tornou-se um país de espiões, local de exílio para importantes personalidades estrangeiras, e aumentou a cooperação entre a PVDE e Gestapo. 
De PVDE a PIDE Em 1945, a PVDE, que tinha sido criada e instruída pelo modelo GESTAPO nazista, muito BRUTA e pouco TÉCNICA, é dissolvida e substituída pela PIDE, que modifica o seu estilo e orientação profissional pelo modelo Scotland Yard. Mais TÉCNICA e menos BRUTALIDADE ! Torna-se uma secção da Polícia Judiciária , e continua a manter o seu estatuto de aparelho de repressão do regime de Salazar.



Como a PVDE, foi dividida em duas secções principais:



Funções administrativas (incluindo os serviços de imigração)
Características penal (aplicação da lei ea segurança do Estado)

A PIDE é considerada por muitos analistas como um dos serviços secretos mais eficaz e funcionais da  História.  Com células secretas em todo o território Português, conseguiu infiltrar-se em  todos os movimentos da oposição, como o Partido Comunista ou movimentos independência em Angola e Moçambique. Tinha também parceria, com centenas de civis, chamados "bufos", que actuaram como espiões entre a população. Isso deu-lhe a possibilidade de controlar todos os  aspectos da vida quotidiana em Portugal. Como resultado, milhares de portugueses foram presos e muitos torturados nas prisões da PIDE.

Desde a guerra nas colónias da África, a PIDE intensificou a sua actividade, principalmente no Ultramar. Depois do 25 de Abril de 974, foi criada uma comissão para dissolução da PIDE, e toda a sua documentação arquivada no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. As suas páginas podem ser visualizadas, excepto o acesso aos nomes dos seus agentes e altos cargo directivos.



As Vítimas da PIDE



Foi responsável por alguns crimes sangrentos, como o assassinato do militante do Partido Comunista Português (PCP) José Dias Coelho e do General Humberto Delgado. Este último foi atraído para uma emboscada, só possível pela introdução de informadores nas organizações que o general liderava ou na sua teia mais íntima de relações pessoais, ultrapassando mesmo as fronteiras nacionais (não só o crime foi cometido em território espanhol como os informadores se encontravam instalados no Brasil, na França e na Itália).
As principais vítimas da PVDE - PIDE foram sempre os comunistas ou seus simpatizantes, cujos mártires ultrapassaram, de longe, quaisquer outros oposicionistas. Parece também averiguado que os elementos das classes «inferiores» recebiam em geral pior tratamento do que os das classes média e superior.  
Seria, no entanto, errado, considerar a polícia Secreta como um organismo de classe visando reprimir apenas actividades de outra classe. Todas as correntes de opinião, incluindo os Católicos e os Integralistas e representantes de todas as classes e grupos sociais contaram inúmeras vítimas das perseguições policiais. 
Num país pequeno como Portugal, altamente centralizado, as pressões políticas iam também afectar muitas profissões «independentes», para lá do funcionalismo público, como frequentemente se verificou. Por vezes, ao perseguir-se alguém, omitiam-se cuidadosamente os motivos políticos reais, invocando-se, antes, razões de ordem profissional ou moral. 
Também se verificaram pressões sobre empresas ou sobre particulares para demitirem ou para recusarem admissão a indivíduos politicamente suspeitos ou de menos confiança. Pôde assim ser estabelecido todo um clima geral de dependência do Estado e dos seus objectivos políticos